Santa Cruz: Um século de história e paixão do dragão da colina tatuiana.
Por Luiz Oliveira.
No dia 25 de janeiro de 2025, o Santa Cruz Futebol Clube, da cidade de Tatuí, celebrou um marco impressionante, 100 anos de existência. Mais do que um time de futebol amador, o “Dragão da Colina” é um patrimônio vivo de Tatuí, com uma história que se mistura com o desenvolvimento social e industrial do município.
A essência do clube remonta à sua fundação oficial em 1925, por operários da fábrica têxtil e de tecelagem, com incentivo de Juvenal de Campos Filho, sócio-proprietário da Companhia de Fiação de Tecelagem. Quando o clube foi fundado, fazia apenas 31 anos que a primeira bola de futebol havia chegado em solo brasileiro, trazida pelo esportista Charles Miller (1874-1953).
Em 1974, a então prefeita Chiquinha Rodrigues atendeu a um pedido do clube e, com apoio de Deolindo Venancio Diniz e de Menotti de Campos, o Santa Cruz conquistou o terreno onde foi construído o campo de futebol, tornando-se sede do time.
Para celebrar este centenário, duas figuras lendárias do clube, o técnico Roberto, "Robertão", e o jogador histórico José Norbal de Moraes Marques, uniram-se, revivendo histórias que se cruzam desde os tempos do famoso “trio de ferro” local.
O lado raiz: Robertão e a vocação para a liderança
A história de Benedito Roberto Machado Vieira, mais conhecido como Robertão, com o Santa Cruz é marcada por garra e por um apelido que tornou parte de sua identidade. "Eu digo para você, primeira coisa, Tatuí me adotou... e depois o Santa Cruz me adotou. Se você falar 'Robertão' do Santa Cruz, a cidade inteira conhece. Ficou isso", relata o técnico.
Hoje, Robertão é o treinador mais longevo do futebol tatuiano em atividade. Sua trajetória no clube começou de forma inusitada de volante a goleiro: "Perdeu-se um volante de ‘feijão com arroz’ e ganhou-se um goleiro ‘meia boca’”, brinca Robertão, lembrando o dia em que foi mandado para o gol pelo treinador da época, Luiz Garavote.
A filosofia que Robertão defende é a de que os goleiros se tornam bons técnicos por desenvolverem uma visão defensiva, além da necessidade de ser um líder comunicador, citando nomes como Rogério Ceni e Taffarel.
Com essa filosofia, ele foi fundamental no primeiro título amador em 1972, e comandou a equipe campeã amadora de 74 a 80, e 82. O técnico ainda hoje segue ativo, coordenando cerca de 130 garotos em diversas categorias e mantendo vivo o trabalho social do clube.
A paixão de Robertão pelo time era tão grande que ele confessa ter "falsificado" a idade do jogador Chipula para que ele pudesse atuar por mais tempo no amador, demonstrando o lado folclórico e entregue do futebol raiz.
José Norbal: a voz da Memória
Ao lado de Robertão nas celebrações, José Norbal de Moraes Marques surge como o guardião da memória do clube. Ele é um dos grandes jogadores responsáveis por garantir que essa história centenária não se perca.
José Norbal foi um dos idealizadores do documentário "Sonho Verde, uma realidade centenária", e se emociona ao falar da essência do clube: "Gente que ainda está entre nós e outros que se tornaram imortais na memória de quem é 'verdão'. A história segue sendo escrita sem limite de tempo e para nunca ser encerrada”.
José Norbal foi um dos principais jogadores do Santa Cruz e, também, presidente por três mandatos nos anos 1980 e 1990. “Na época, Robertão chegou para mim e falou que ninguém queria ser presidente do Santa Cruz. Então, falei para ele: ‘Deixa os documentos aqui na mesa. Vai lá e fala que o Santa Cruz tem, tem quem queira ser presidente. Eu sou presidente aí’, comenta Norbal.
Em seu mandato, Norbal reformou o campo pela primeira vez, fechando no final do ano para que a manutenção acontecesse, cultura essa que foi implementada e continuou em outros anos. “O Juventus da Mooca veio inaugurar o nosso gramado. E perdeu para nós aqui”, diz Norbal.
Outro feito de Norbal, em seu mandato, foi a criação do famoso Campeonato de Verão de Tatuí, que acontecia na época do antigo horário de verão. Devido ao campo não ter iluminação própria na época, usava a luz do sol para iluminar os jogos à noite.
Nos dias de hoje
Embora o foco seja majoritariamente masculino, o Santa Cruz tem portas abertas para as meninas, que acabam treinando junto aos meninos, sempre com ênfase no respeito. Casos notáveis, como o de Raíssa, mostram o potencial do trabalho. A ex-atleta do Santa Cruz, que jogou no projeto desde os 8 anos de idade, hoje, participa de treinos no São Bento, que disputa o Campeonato Paulista Feminino Sub-20.
Atualmente, o presidente do Santa Cruz é Marcos Fernandes de Lima, que destaca o trabalho social do Santa Cruz na comunidade, acolhendo qualquer criança interessada, dando os materiais necessários para participar dos treinos e jogos (chuteira, meião, calção, camisa), e aos sábados, o famoso café da manhã solidário. Marcos além de presidente, é jogador do Santa Cruz, atualmente, busca o tricampeonato consecutivo na Copa Rádio.
Marcos destaca que o maior problema atualmente é o financeiro, no qual a principal fonte de renda é a do Bar do Santa Cruz, além de doações, rifas e venda de camisas. Ainda mais, Marcos comenta que o presidente faz tudo, arruma o campo, limpeza, entre outras coisas.
Para marcar a data histórica, a comunidade e a diretoria realizaram a grandiosa "Semana Verde" de comemorações, que incluiu: Homenagens Institucionais na Câmara Municipal, a regravação do hino oficial em parceria com a FATEC e o Conservatório de Tatuí, o lançamento de um documentário e a celebração de um Jogo Solidário.
Santa Cruz de Tatuí: a bola que transforma vidas
De jogador a coordenador voluntário, Luiz Eduardo Paques Hessel revela como o projeto comunitário usa o futebol para oferecer base familiar, conscientização e oportunidades a jovens na região.
Aos seis anos de idade, Luiz encontrou, no Santa Cruz, o campo onde daria seus primeiros chutes. O que começou como um hobby se transformou em uma história de vida e identidade. "Eu nunca joguei em outro lugar," conta Luiz. "Aprendi praticamente tudo o que sei dentro do Santa Cruz, não só no futebol, mas o trabalho em equipe, o companheirismo e o respeito".
Após encerrar sua trajetória como atleta aos 17 anos de idade – atuando em todas as posições do campo –, a ligação não se quebrou. Aos 18 anos de idade, ele se tornou voluntário e, em 2021, integrou o Departamento de Esportes da Prefeitura de Tatuí, onde hoje atua, também, na captação de recursos e no treinamento das categorias mais velhas (sub-14 e sub-16).
O projeto vai muito além das quatro linhas do campo. Muitas crianças e jovens vêm de situações de vulnerabilidade e sem uma base familiar sólida. Assim, Luiz, juntamente a equipe do Santa Cruz, integra o trabalho social ao esporte.
"Não temos um dia específico para isso, mas, ao longo dos treinos, tentamos trabalhar essa situação", explica Luiz. O foco é na conscientização: "Falamos sobre a importância de frequentar a escola, de pensar no mercado de trabalho – buscando vagas de menor aprendiz –, e fazemos uma conscientização muito grande sobre o uso de drogas e bebida”, comenta Luiz.
Lidar com o esporte de base em um contexto social complexo implica em grandes desafios. Muitos jovens chegam com um temperamento forte e dificuldade para obedecer e entender regras, fruto da falta de base familiar. "Muitas vezes, a criança vem sem uma base e precisamos tratar como um irmão ou um filho mais velho que não tem apoio em casa," afirma Luiz.
“No aspecto estritamente esportivo, o time trabalha com atletas que, frequentemente, nunca jogaram ou vieram do ’futebol de rua’, sem noção de estratégia, posicionamento ou trabalho em equipe necessário em competições”, comenta Luiz.
Outro ponto de luta é a oportunidade de jogo. Graças ao esforço voluntário e à ajuda de parceiros como Raul, pai de um dos meninos, o projeto tem conseguido avançar. "Conseguimos uniformes novos nos últimos dois anos e buscamos sempre participar do máximo de jogos possíveis", conta Luiz. O obstáculo principal são os custos envolvidos: taxas de inscrição, arbitragem e transporte para campeonatos regionais.
Com planos de solicitar o tombamento imaterial do clube, o Santa Cruz F.C. celebra não apenas o seu passado, mas a permanência de seu legado na história de Tatuí. A paixão de diversos cidadãos tatuianos é a que faz do "Dragão da Colina Santa" uma instituição rara e preciosa.
Jogadores em campo pelo time Santa Cruz Futebol Clube, em 1965.
Fonte: Acervo pessoal.
Escalação do time campeão do Santa Cruz, seu primeiro título no campeonato de várzeano de Tatuí.
Fonte: Acervo pessoal.
Luiz Hessel na época em que ainda atuava como jogador da várzea.
Fonte: Acervo pessoal.