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Paixão em campo


Por Pedro Egidio

Para muitos, o sonho de ser um atleta profissional de futebol é uma chama que se acende na infância. Para alguns, essa chama se mantém viva, ardente e competitiva, nos campos de terra batida e gramados improvisados da várzea. Longe dos holofotes e dos grandes salários, esses jogadores encontram no futebol amador a arena ideal para extravasar o amor pelo esporte, a busca incessante pela vitória e o espírito de corpo que só o vestiário pode proporcionar.

 
O caminho até a várzea é, muitas vezes, pavimentado com a nostalgia dos tempos de base e a dura realidade da não-realização do sonho profissional. Matheus Oliveira, que começou a jogar como lateral-direito e se firmou como meio-campista, relembrou os inúmeros testes e peneiras em clubes como o Atlético Sorocaba e o Desportivo Brasil. Sua chance mais concreta, com um empresário que o levaria ao Mirassol, desmoronou: “Faltando quatro dias para eu viajar, o empresário sumiu, desapareceu, nunca mais deu as caras”, conta. A chegada da paternidade aos 18 anos selou a mudança de rota. “Com 18 anos eu fui pai, então, eu já achava tarde para me tornar jogador. Depois que eu fui pai, eu tive que mudar minha vida 100 por cento. Aí que eu pensei, aí que eu fui atrás de jogar na várzea.”

 
A história de Matheus Gambera, que jogou no São Caetano, no Santos e passou três anos no Cruz Azul, no México, demonstra o quão frágil pode ser a carreira na base. Uma lesão precoce – a síndrome de Osgood-Schlatter, que o imobilizou por seis meses –, coincidiu com o retorno de sua família ao Brasil. O desânimo foi inevitável. “Já deixei um pouco de lado a parte do futebol, já estava meio desanimado. E foi um tempo muito crucial, porque naquela época, de 15 aos 18, você está num ponto que ou você vira ou já era mesmo”, analisa.


Matheus Gambera disputando uma partida da segunda divisão de Sorocaba.
Fonte: Arquivo pessoal

Felipe Dias, que disputou o Campeonato Paulista pelo Grêmio Osasco, viu a pandemia apertar o tempo. “Eu tive a sorte de, após muitas peneiras e frustrações, poder disputar por dois anos o campeonato paulista... mas com a parada da pandemia, o tempo acabou ficando apertado para mim, então, comecei a estudar jornalismo para, exatamente, de alguma forma, ainda estar nos grandes estádios”, explica o estudante. A várzea se tornou o refúgio, o lugar onde a paixão e a competitividade podiam coexistir.

 
O que move esses atletas a dedicarem seus fins de semana e seu tempo livre aos jogos da várzea, enfrentando campos ruins, logística complexa e, por vezes, violência? A resposta reside na paixão pelo futebol e, principalmente, no apetite pela competição.

 
Matheus Gambera traduz esse sentimento de forma clara: “Quem gosta da competição em si, por exemplo, eu sou muito competitivo. Eu gosto muito de jogar futebol em qualquer lugar, em qualquer hora, qualquer dia. Só que eu sou muito um cara da competitividade, então, eu adoro jogar coisa que vale alguma coisa, jogar campeonato, jogar, enfim. E, na várzea, você encontra isso, né? É um lazer misturado com seriedade. É um lazer mais sério.”

 
A cobrança e a seriedade do futebol de várzea surpreendem e atraem. Gambera conta que, no Novo Horizonte, da segunda divisão de Sorocaba, a pressão foi intensa: “Era cobrança dentro do vestiário, era cobrança de torcedor, era cobrança de diretor, cobrança de técnico… Dentro do clube isso é absurdo, é uma galera que realmente ama o negócio.” O nível de profissionalismo na organização e a expectativa de resultado são o combustível para quem ainda busca o ápice da adrenalina esportiva. “Eu acho que o mais próximo que você vai chegar disso, hoje em dia, é na várzea, que você tem essa emoção de qual time vai subir, qual vai cair, quem são as contratações de cada time”, comenta Gambera, que se encanta com a “movimentação”, entre aspas, do “mercado” da várzea.

 
Para Matheus Oliveira, o principal valor é a resenha e a saúde mental: “O que eu mais gosto da várzea é ali, no final de semana, com a rapaziada que é amigo, tá na resenha, fazer o que você gosta. Acho que a nossa vida, hoje em dia, é uma correria danada, então, acaba sendo um lugar onde se esfria a cabeça, fazer o que você ama, com amigos na resenha e é isso que importa.”


Felipe Dias disputando uma partida da segunda divisão de Sorocaba.
Fonte: Arquivo pessoal

Felipe Dias destaca a importância social da várzea: “O que eu mais gosto nos jogos é poder ter contato com pessoas que, se não fosse o futebol e a várzea, não teria oportunidade. Sorocaba é uma cidade muito grande, então, conhecer novos núcleos, novas amizades e contatos é sempre muito gratificante.”

 
A paixão é o motor, mas a realidade da várzea traz consigo desafios que, por vezes, beiram o risco. A violência e a precariedade dos campos são temas recorrentes nas falas dos atletas.

 
“Se falar de várzea e não falar de briga, aí não é várzea de verdade”, afirma Matheus Oliveira, que já esteve em brigas mais feias em finais de campeonato. A tentativa de manter a consciência de adulto para “não prejudicar a vida pessoal” é uma constante para ele.

 
Apesar de reconhecer a paixão das torcidas – “é um amor de pai pra filho, de vô pra pai, é um negócio, assim, que vem de geração pra geração” –, Matheus Gambera lamenta o que considera ser um problema da várzea: a violência. Ele relata o episódio traumático em que sua namorada, Juliana Moraes, foi ferida por uma bomba estourada pela torcida: “Tentaram jogar uma bomba no gramado, mas ela ricocheteou em uma árvore e foi parar no pé dela. Ela teve problemas de audição por dias e teve cortes pelo corpo, causados por pequenos estilhaços. Me fez pensar em continuar ou não na várzea, inclusive.” Gambera também critica a qualidade dos campos: “Os campos são muito ruins, muito ruins... além do risco do jogo ser ruim, ainda você corre um risco absurdo de lesões.”

 
Mesmo diante dos riscos, o futuro para esses atletas é nos gramados da várzea.

 
“Pretendo continuar jogando a várzea, né?! Vai passando a idade aí, e quando bater a idade do veterano, vamos pro veterano também”, planeja Matheus Oliveira, que vê, no futebol de final de semana, um momento de descompressão. Gambera compartilha o mesmo desejo: “Acredito eu que, ano que vem, estarei novamente jogando alguns campeonatos da várzea.”

 
A paixão, a competitividade e o desejo de estar no campo continuam sendo a força vital que alimenta a várzea. Esses atletas não apenas se mantêm jogando; eles mantêm viva a cultura, a tradição e o espírito do futebol de raiz, provando que a grandeza de um jogo não está apenas no seu palco, mas no fervor inesgotável de quem o joga.