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O coração da Várzea: histórias de paixão, legado e resistência no futebol amador

Por Rai Santos

O futebol de várzea, longe dos holofotes e dos milhões das grandes ligas, é o que move a paixão pelo esporte em milhares de comunidades. Mais do que uma bola e um campo, ele se transforma em um pilar social, uma espécie de “guardião” de tradições e, muitas vezes, em uma instituição de suporte para o bairro. Por trás de cada time, há um ou mais líderes que investem tempo, dinheiro e, acima de tudo, paixão para manter o sonho vivo. Duas histórias, de David Xavier, do Sport Clube Ouro Verde Mairinque; e Joneslei Aparecido Miranda, do Netos Esporte Clube, ambas da região de Mairinque, revelam a complexidade e a beleza de ser dono de um time amador.

Duas histórias, de David Xavier, do Sport Clube Ouro Verde Mairinque; e Joneslei Aparecido Miranda, do Netos Esporte Clube, ambas da região de Mairinque, revelam a complexidade e a beleza de ser dono de um time amador.

Sport Clube Ouro Verde. Fonte: Acervo Pessoal

Netos Esporte CLube. Fonte: Acervo Pessoal

O legado e a instituição social: Sport Clube Ouro Verde Mairinque

Com 25 anos de história, o Ouro Verde Mairinque, que começou como Granada Sport Clube em homenagem ao nome do bairro Vila Granada, é um testemunho da longevidade e da importância do futebol de várzea. Para David Xavier, um dos responsáveis por manter o time, a motivação transcende o campo: é sobre manter o legado e a tradição no bairro.

"Um dos motivos da gente dar continuidade nesse trabalho é manter o legado, manter a tradição ali no bairro. Hoje, o meu filho também me acompanha, e a ideia é que a gente passe gerações, que nunca deixem acabar isso daí.”

Fonte: M12.fotos. Elenco Sport Clube Ouro Verde (Batata, Diguinho, Dugueto, Gian, Zóio e China, respectivamente.)

O Ouro Verde adota o slogan "não é só futebol", e o leva a sério. O time se transformou em uma verdadeira instituição social, realizando eventos para crianças, arrecadando alimentos e, em um momento marcante, mobilizando-se para ajudar um ex-atleta, que ficou paraplégico após um acidente de carro, em um evento que conseguiu arrecadar uma quantia de fraldas geriátricas, suprindo-o durante um ano.

Flyer utilizado para divulgar ação beneficente para o ex atleta do Sport Clube Ouro Verde. Fonte: Acervo Pessoal

David Xavier, dono do Sport Clube Ouro Verde. Fonte: Acervo Pessoal

Além do amor por jogar futebol e ter o nome do Ouro Verde sendo reconhecido na comunidade, o lado de poder ajudar a comunidade com alimentos, proporcionando eventos e sempre visando ajudar o próximo, é o que motiva não só David, mas todos do time a querer continuar atuando e levando o nome do time no peito.

David Xavier ressalta que essa vertente social tomou uma proporção inesperada: "A gente não tinha ideia que ia tomar essa proporção tão grande que tomou.”

Hoje, o Esporte Clube Ouro Verde não é apenas visto como um time de futebol pela comunidade, mas sim, como uma família que sempre está em busca de abraçar e ajudar o próximo.

Paixão de família: a origem do Netos Esporte Clube

A história do Netos Esporte Clube, fundado em 2009, é um retrato da união familiar. Joneslei Aparecido Miranda conta que o time nasceu de uma sugestão de sua avó, Dona Maria Antônia, cansada de ver os netos e primos jogando em times rivais, pois, quando a família se reunia, sempre tinha uma discussão aqui, outra ali, cada um defendendo seu lado.

"Toda vez [ela] escutando essa briga: ‘Por que que vocês não jogam tudo num time só?’”, lembra Joneslei.

A partir daí, eles tiveram a ideia de montar um time só, mas sem ideia para o nome. “Foi onde surgiu minha avó, que acabou dando essa ideia pra gente: ‘Por que que vocês não colocam Netos?’.”

 

Maria Antonia, avó de Joneslei. Fonte: Acervo Pessoal

Time Netos Esporte Clube. Fonte: Acervo Pessoal

O time, criado inicialmente para a diversão e união da família, rapidamente pegou gosto pela competição, conquistando títulos e ganhando visibilidade na região. Embora, hoje, o time conte com mais amigos do que parentes, a essência do projeto permanece: a paixão de estar junto.

Time Netos Esporte Clube. Fonte: Acervo Pessoal

Mas nem sempre foi mil maravilhas. No começo, ainda sem dinheiro em caixa para suprir as necessidades do time, o Netos utilizou uniformes emprestados para dar início a sua trajetória no cenário regional, além de fazer eventos, como Pizza Solidária para levantar verba. Com o tempo, aliado de muito trabalho e dedicação, o time começou a ter seu merecido reconhecimento não só da comunidade, mas também, de patrocinadores.

Começo do Netos Esporte Clube utilizando uniforme emprestado. Fonte: Acervo Pessoal

Flyer utilizado para divulgar pizza solidária para levantar caixa do time. Fonte: Acervo Pessoal

Os desafios da Várzea: finanças e a "corrupção"

Manter um time de várzea ativo é uma luta constante contra as dificuldades financeiras. David, do Ouro Verde, lista os custos: taxas de campeonato, arbitragem, uniformes, lavagem e, até mesmo, kits de emergência médica. A solução passa por uma gestão criativa e incansável:

• Patrocínio local: ambos os times contam com o apoio de comércios e empresas da região.

• Arrecadação própria: o Ouro Verde realiza rifas e cobra uma mensalidade simbólica dos veteranos. O Netos se une para bancar as inscrições e custos, além do "terceiro tempo" (refrigerantes e algo para comer após o jogo).

• Venda de camisas: o Ouro Verde vende camisas de torcida para abastecer o caixa do time.

No entanto, o maior desafio, segundo Joneslei, do Netos, não é apenas a falta de recursos, mas a profissionalização predatória da várzea. "O futebol de várzea, cara, tá muito corrupto. A maior dificuldade que você encontra é o próprio jogador. Se você oferecer 10 reais a mais, ele já te abandona. Tá muito concorrido... Tá envolvendo muito dinheiro.”

Joneslei explica que times das regiões, como Sorocaba, oferecem cachês altos para jogadores amadores, forçando os times locais a cobrir valores que chegam a R$ 500 por jogo. "Eu não tenho condições de fazer isso", lamenta, ressaltando que, para os donos, o retorno é apenas a medalha e o troféu, não o financeiro.

David Xavier complementa, afirmando que a maior dificuldade é a gestão de pessoas:

"Manter uma equipe é complicado, porque você tem ali um grupo aí de 18, 20 pessoas, cada um com pensamento diferente. O maior desafio é você ter um jogo de cintura ali, pra tentar manter o equilíbrio emocional.”

Os desafios da Várzea: finanças e a "corrupção"

Apesar dos obstáculos, a motivação para David e Joneslei é a mesma: a paixão pelo esporte e o impacto na comunidade.

David aconselha quem sonha em criar um time a "fazer com amor, dedicação, agarrar com as duas mãos mesmo. Não fazer só por momentos". Ele e seu time se veem como uma inspiração, mantendo os jovens longe de "coisa errada" e incentivando o movimento no campo.

Sport Clube Ouro Verde. Fonte: Acervo Pessoal

Joneslei, que se dedica quase sozinho à logística do Netos, desde a busca por patrocínio até a escalação, resume o sentimento: "A gente vai com amor mesmo, você veste a camisa.”

Joneslei e sua família. Fonte: Acervo Pessoal

O futebol de várzea, portanto, é um ato de resistência e amor. É a prova de que, para além da competição, o esporte pode ser uma ferramenta poderosa para construir laços, manter legados e transformar vidas na comunidade.

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Sport Clube Ouro Verde

Netos Esporte Clube