Paixão, títulos e a triste crise do amor à camisa
Por Luiz Oliveira
O futebol de várzea sempre foi mais do que um esporte, é uma escola de vida, um refúgio e, para muitos, uma porta de entrada para o sonho profissional. Em Ibiúna, no interior de São Paulo, a história do futebol de várzea se mistura com a trajetória de Umberto Monteiro, um "professor" que dedicou décadas à paixão pela bola, colecionando títulos e revelando talentos.
A saga de Umberto começou no salão, no qual foi campeão do 1º campeonato municipal de Ibiúna, com o time Oyama. A transição para o futebol de campo, em 1990, apenas potencializou seu talento para a gestão e o comando do time. Em 1997, não mais como jogador, fundou o Conquista sub-15, um time de "primeira linha" formado pelos melhores jogadores da cidade. A equipe foi um fenômeno, sendo bicampeã invicta do campeonato municipal, ostentando a defesa menos vazada e o ataque mais positivo.
A ascensão meteórica o levou ao principal clube da várzea local, o Guarani Atlético Clube. No mesmo ano, Umberto assumiu o comando do sub-19 e foi campeão da categoria. Em seguida, foi bicampeão municipal no veterano. O ápice veio com o convite para ser técnico do time principal, que conquistou o título em 1998, e o vice-campeonato em 1999.
Entre tantas conquistas, a final de 1998 pelo Guarani é a lembrança mais vívida. O adversário era o Santa Rosa, um time patrocinado por uma associação japonesa, tido como favorito e recheado de jogadores de alto nível. Após vencer o primeiro jogo por 2 a 1, Umberto surpreendeu na partida de volta, em que um empate lhe daria o título. "Eu coloquei o time para frente, saquei um volante e joguei com três atacantes”, relata. A ousadia deu certo: vitória de 1 a 0, e mais um campeonato na bagagem. "Me marcou muito, pois ganhamos de profissionais”, finaliza Umberto.
Longe dos holofotes e do futebol profissional, Umberto Monteiro sempre esteve atento à formação e ao bem-estar de seus atletas. Sua influência ultrapassou as fronteiras de Ibiúna. Em Sorocaba, classificou o Parque São Bento para a Taça Baltazar, a principal série da cidade, atuando com jogadores contratados de outras localidades. Em Piedade, comandou o Marechal em 2002, alcançando o segundo lugar no campeonato municipal.
Professor Umberto Monteiro.
Fonte: Acervo pessoal.
Muitos jovens talentos passaram por suas mãos. No Conquista, os jogadores eram os destaques locais. No Guarani, ele trouxe, de São Paulo, o meio-campista Gaspar e o zagueiro Leandro, que hoje disputa a segunda divisão do campeonato holandês. O centroavante Tarcísio, "craque de bola aos 16 anos," era outro destaque, mas, por "ironia do destino, não chegou ao profissional", comenta Umberto.
Umberto também ajudou o atacante Diego Costa – hoje, nome consagrado no futebol internacional – em questões de saúde, quando o atleta jogava em Ibiúna, apesar de nunca ter atuado sob seu comando.
Além do campo: o resgate social
A missão de Umberto sempre foi além das quatro linhas. O futebol, em sua visão, é uma poderosa ferramenta de transformação social. "O futebol de várzea ajuda muito a tirar as pessoas da rua," afirma Umberto. O foco, a disciplina e a rotina do esporte funcionam como um escudo contra a marginalidade. "Teve muitos jogadores que eu ajudei a sair do mundo das drogas, coloquei um pouco de felicidade no dia a dia deles", complementa Umberto.
A grande decepção e o fim de uma era
Mesmo com tanta dedicação, Umberto caiu em profundo desgosto. A "palhaçada" no meio varzeano o afastou. A gota d'água foi quando o time Conquista foi convidado para um campeonato no Rio de Janeiro, que se revelou uma farsa. "Estávamos todos arrumados para sair, esperando só o ônibus," lembra Umberto. O "golpista" avisou que o campeonato não ocorreria.
A decepção foi tanta que ele desmanchou o Conquista, passando a se envolver com outros times "apenas por diversão". O que o afastou foi a transformação do futebol de várzea em uma negociação fria. "Atualmente, na várzea, a molecada só joga por dinheiro. A várzea, em Ibiúna, acabou, não só aqui, mas acho que no geral, tudo é dinheiro hoje em dia, ninguém mais tem amor para jogar, se não pingar na conta, não jogam”, lamenta Umberto.
A história de Umberto Monteiro é um testemunho de uma outra época do futebol amador, pautada pela paixão, formação de caráter e amor à camisa, valores que, segundo ele, estão tristemente se esvaindo na várzea hoje em dia.