Além do Jogo: A Batalha pela Estrutura Ideal nos Palcos do Varzeano Sorocabano
Por Pedro Egidio
Nos últimos anos, o futebol de várzea da região de Sorocaba evoluiu de maneira impressionante, contando com a presença de ex-jogadores profissionais com frequência e com times cada vez mais competitivos. Jogadores como Leandro Damião, com passagens pelo Internacional de Porto Alegre, Santos, Cruzeiro e seleção brasileira; como o volante Cristian, ex-Corinthians e Flamengo; e Jaílson, ex-goleiro do Palmeiras, são apenas alguns dos nomes a se destacar na várzea sorocabana nos últimos anos. De acordo com Rodrigo da Silveira, produtor de conteúdo especializado no futebol de várzea de Sorocaba, um clube que disputa a Taça Cidade, gasta, pelo menos, 10 mil reais com jogadores por partida hoje em dia. E, de acordo com ele, um investimento como esse não te coloca como candidato ao título, pois alguns clubes chegam a investir de 15 a 20 mil por partida.
Ronomarcos Zinkoski, experiente dirigente da várzea, com passagens pelo E.C. Enquadros e pelo Manchester Paulista, explica que alguns jogadores chegam a ganhar de dois a três mil reais por partida. Ao pensarmos que, em uma temporada, uma equipe disputará, no mínimo, nove partidas na fase classificatória, e outros cinco possíveis confrontos na fase mata-mata, caso a equipe avance até a grande final, vemos que as cifras para manter um elenco podem, facilmente, ultrapassar a casa dos 100 mil reais. Esse custo, porém, engloba apenas o valor gasto com os atletas, desconsiderando os custos com comissão técnica, equipamentos, marketing e outros custos atrelados às partidas, como o pagamento feito aos juízes e aos gandulas. Entretanto, essa evolução na qualidade dos atletas e do jogo disputado não foi acompanhada por uma evolução em um dos mais importantes elementos do jogo de futebol: o gramado.
Reclamações constantes daqueles que participam dos campeonatos varzeanos da região, o tema das qualidades dos gramados é recorrente entre jogadores e dirigentes, que clamam por melhorias e maiores investimentos por parte do poder público. Para Ronomarcos, a várzea evoluiu muito nos últimos anos, mas os gramados continuam sendo um problema. “Ela (a várzea) cresceu muito em organização e nível técnico. E parou no tempo com estrutura. Hoje, os campos de várzea, os campos de futebol amador de Sorocaba são precários. São precários e não tem uma perspectiva de melhora. Não existe uma perspectiva de melhora, porque o investimento não existe. Se você pegar o orçamento, eles mal conseguem fazer o pagamento dos funcionários. Então, todo o percentual do orçamento da prefeitura para o esporte não prevê nenhuma reforma de centro esportivo, nenhuma troca de gramado, nenhuma manutenção, nada.” Roni ainda acrescenta que os campos não apenas pararam no tempo, e sim, que “além de ter parado, a gente regrediu em termos de estrutura”, explicou, salientando que a falta de manutenção dos gramados já existentes faz com que os campos estejam piores a cada ano que passa.
Em alguns casos, Ronomarcos explica que a situação dos campos praticamente inviabiliza a prática do bom futebol. “O campo do Nova Sorocaba, mais da metade dele é terra, então, isso dificulta. No campo do Centro Esportivo Mária Eugênia, é impraticável o futebol lá. Campo do Pitico, mesma coisa. O Jardim Simus, Brigadeiro Tobias, Vila Gabriel, é impraticável.”
Matheus Gambera, atleta de 26 anos, de Sorocaba, explica que a situação dos campos, mesmo para o nível amador, é bastante precária. “É claro que não podemos exigir campos perfeitos na várzea, mas é algo que influencia demais o jogo. Além de afetar o jogo, você aumenta muito o risco de lesões.” Ele ainda salienta que o problema não está apenas na qualidade dos gramados, mas também na falta de padronização dos gramados. “Um dia você vai jogar e o campo parece uma quadra de futebol de salão, no outro dia, parece que está no estádio do Morumbi de tão grande que é o campo”, completou Matheus.
Para Moabe Santana, torcedor de várzea, 55 anos, a condição dos campos não é apenas crucial para a prática do esporte, mas também um fator importante para que ele decida onde irá acompanhar as partidas. “Eu prefiro ir em jogos onde tem uma arquibancada coberta, que protege a gente do sol e da chuva”, explicou. “Os jogos da várzea, muitas vezes, são no horário do almoço, então, às vezes, o sol é pesado. Por exemplo, um dia como hoje, bastante frio e com chuva, estamos aqui assistindo no coberto”, contou Moabe, em conversa durante a partida entre A. A. Primavera e A. A. Vila Haro, no estádio Nenê Brandão, campo onde o Avenida manda seus jogos no Jardim São Carlos. “A Taça Cidade acontece no final do ano, então, é um período que chove bastante, essa proteção faz bastante diferença”, concluiu.
Entrada campo do Jair. Fonte: Pedro Egidio
Gramado do campo do Jair. Fonte: Pedro Egidio
Lanchonete do campo do Jair. Fonte: Pedro Egidio
Apesar da triste situação em que os campos atualmente se encontram, um local se destaca pelos motivos certos: Campo do Jair. “As estruturas são realmente bem precárias. Você vai ter um campo melhor, uma estrutura melhor lá no Campo do Jair, no Caguassu”, disse Jesus Vicente, repórter responsável por cobrir a várzea de Sorocaba pelo Portal Porque. E não é apenas ele que enaltece a estrutura montada nesse campo, que recebe jogos da várzea, além de partidas das categorias de base do E. C. São Bento e de outros campeonatos amadores. “Com certeza, o campo do Jair é um dos melhores para ver jogos, só é um pouco longe, mas o ambiente lá é bem bacana”, ressaltou Moabe.
Jair Nogueira, de 68 anos, é, hoje, aposentado de sua carreira como empresário no setor de construção civil, atualmente, dedica seu tempo para administrar o campo do Jair, localizado no Caguassu; além de um outro campo menor, de grama sintética, no Jardim Hungares, também em Sorocaba. Nogueira adquiriu o terreno em 2008 e começou um processo longo de reformas e melhorias, “resolvi entrar nesse mercado, pois sempre fui ligado com a várzea, ela me deu tudo que conquistei em minha vida, e nunca consegui viver sem me envolver com o futebol de várzea de Sorocaba”, explicou. Nogueira, assim como muitos jogadores que passaram pela várzea, tentou alcançar o profissionalismo, atuando nas categorias de base do E. C. São Bento durante a década de 1970. “Atuava como zagueiro, mas me machuquei com 17 anos, e, então, me dispensaram. Desde então, joguei na várzea por mais de 30 anos e fui campeão como goleiro e como zagueiro”, contou Nogueira.
Hoje, os campos são a única fonte de renda para ele e sua família. Entretanto, ele ressalta que os investimentos feitos ali não miravam apenas a aumentar o seu faturamento, e sim criar um ambiente que famílias poderiam frequentar, sem medo de violência. “A gente recebe aqui todos eles com o maior respeito, pois é um campo onde a maioria que frequenta são famílias. Para isso, precisamos ter bons vestiários, arquibancadas, bons banheiros, limpos, a lanchonete limpinha, estacionamento fechado, então é isso que importa para mim”, complementa Nogueira.
Uma política que Nogueira adota para evitar confusões e tornar o ambiente ainda mais agradável, algo que não é visto em outros estádios, é a proibição de torcedores entrarem com bebidas alcoólicas. “A única coisa que nós não permitimos aqui é a entrada com bebidas”, explicou ele. “Claro, nós vendemos uma cervejinha na lanchonete, e até vendemos uma cachaça de qualidade, que custa mais de 15 reais a dose, mas o pessoal não consome para ficar bêbado porque é caro demais.” A proibição, de acordo com Nogueira, visa impedir que indivíduos fiquem embriagados ao assistir ao jogo, mantendo o ambiente mais seguro para as famílias que ali frequentam. Essa prática é bastante incomum nos outros campos, que são concessões da prefeitura e administrados pelos próprios clubes. Neles, além da venda de bebidas, os torcedores levam o que bem entendem em seus cooler e, também, não é raro ver alguns consumindo outras drogas, como a maconha, nas arquibancadas.
Vestiário mandante Campo do Jair. Fonte: Pedro Egidio
Vestiário Visitante Campo do Jair. Fonte: Pedro Egidio
Entretanto, os investimentos feitos por Nogueira não param por aí, já que ele fez questão de criar um ambiente capaz de receber todos os envolvidos com a várzea com excelência. Além do estacionamento, da lanchonete e das arquibancadas, ele também investiu em uma estrutura que inclui camarote para os dirigentes dos clubes que participam das partidas, cabine de imprensa para a realização de transmissões e quatro vestiários com armários individuais para os atletas, chuveiros com água quente, além de um vestiário exclusivamente destinado à equipe de arbitragem.
Cabine de Imprensa do Campo do Jair.
Fonte: Pedro Egidio
Camarote do Campo do Jair.
Fonte: Pedro Egidio
Para os profissionais de imprensa, essa estrutura é fundamental e é bastante rara no contexto da várzea sorocabana. Andrey Polez, de 26 anos, proprietário do canal do Youtube “Barba na Várzea”, que faz transmissões dos jogos dos campeonatos de futebol amador de Sorocaba, explica que “a verdade é que você não tem estrutura, a gente dá um jeito com o que a gente tem, montamos andaime, colocamos uma tenda com cadeira que a gente mesmo leva, porque estrutura a gente não tem”, explicou Andrey.
Já no campo do Jair, a história é diferente, como explica Rodrigo da Silveira, dono do podcast “É da várzea”, e de um canal que publica os melhores momentos das partidas. “Você pega lá o campo do Jair, por exemplo, com internet à cabo, energia elétrica e tudo mais, uma estrutura que nem o estado municipal tem”, disse Rodrigo.
E o que já era bom, está se tornando ainda melhor, pois Nogueira já está concluindo a construção de uma outra lanchonete, ao lado da arquibancada, localizada no outro lado do campo, com o intuito de separar duas torcidas rivais em jogos mais “quentes”. Ele viu a necessidade de realizar essa reforma, pois a prefeitura já enxerga esse campo como um dos melhores locais para a realização de jogos entre times com grande rivalidade. “A prefeitura não nos apoia, nós que apoiamos a prefeitura, porque quando tem um jogo entre dois times meio complicados, eles mandam o jogo pra cá”, explicou. “Então, nós recebemos eles de braços abertos, sem custo, porque a prefeitura que tá pedindo. Então, aqui eu acho que é um dos campos onde é mais difícil de sair aquele quebra-pau, nunca houve isso aqui, sempre teve o respeito.”
A solução para o problema da estrutura, para muitos, não está no poder público, e sim no investimento privado, como ocorre no Campo do Jair. Atualmente, o apoio da prefeitura por parte daqueles que administram os campos é praticamente inexistente. Wagner Silva, atleta veterano de várzea que também participa do podcast “É da várzea”, comentou sobre a falta de qualidade dos gramados, e explicou que os clubes não podem esperar que essa ajuda venha do poder público. “Prefeitura não vai fazer isso porque é gasto, e não é prioridade. Os clubes ficam esperando a prefeitura, e a prefeitura não vai dar o que tem de melhor, de mais bonito, não adianta.” Entretanto, Wagner salienta que os clubes poderiam oferecer algo em troca, para que a prefeitura e a secretaria de esportes justificassem o investimento, citando a cidade de São Paulo como exemplo a ser seguido. “Eu penso que, ao invés deles ficarem terceirizando seu campo, alugando seu campo, por que não fazer um projeto social? Por que não procurar pessoas para fazer um projeto social, para levar esse retorno à sociedade? Eles querem muito da prefeitura e eles não correm atrás. Porque justamente isso aconteceu em São Paulo. A maioria dos clubes tem projeto social e são todos frutos de emendas.” A maioria dos clubes de São Paulo já tem campo de grama sintética através do poder público. “Em Sorocaba, eles cobram muito da prefeitura, e a prefeitura não vai fazer nada", completou Wagner.
A mudança é necessária, mas ainda está distante no horizonte. De acordo com dados fornecidos pelo secretário de Esporte de Sorocaba, Victor Hugo Tavares, o orçamento da Secretaria de Esportes e Qualidade de Vida (Sequav) para 2026 é de pouco mais de 37 milhões de reais, desses, 15 milhões são para recursos humanos, 11 milhões para custeio e 11 milhões para outros investimentos. Porém, esse orçamento é para toda a pasta e precisa cobrir muito mais do que a manutenção das estruturas onde o futebol é praticado. E, para termos uma ideia, o custo para a implementação de um gramado de grama sintética semi-profissional, que seria uma ótima solução para a melhoria dos gramados e um custo menor de manutenção, é de um milhão de reais, de acordo com Ronomarcos. Com isso, vemos que o orçamento público simplesmente não chega perto de ser suficiente para mudar, de maneira significativa, a situação dos campos de futebol da cidade.