builderall

Presidente, patrocinador, gestor: na várzea, muitas vezes, é a mesma pessoa

Por Pedro Egidio

O futebol de várzea é o mais popular representante do grupo dos esportes amadores praticados no país. Com origens que remontam ao início do século XX, o futebol de várzea sempre acompanhou a prática do futebol no Brasil. Quando o esporte chegou ao país, trazido por imigrantes, em sua maioria, ingleses, no final do século XIX, ele era praticado de maneira amadora pelas elites urbanas em clubes privados e exclusivos até a década de 1930, quando a profissionalização chegou a esses clubes, elevando o nível de competitividade, democratizando o acesso ao esporte e elevando o nível do futebol brasileiro. Como explica Pablo Alabarces, em seu livro História mínima do futebol na América Latina, “pouco sabemos sobre a popularização do futebol paulista, originalmente limitado, como estamos narrando, a imigrantes nobres ou seus descendentes, e a jovens da burguesia cafeeira paulista educados nos melhores colégios” (2022, p. 104).

 
Nas periferias das grandes cidades, onde também se praticava o futebol amador, essa prática se estende até os dias de hoje, símbolo da cultura popular. Por isso, temos o costume de associar o futebol de várzea, e o amadorismo como um todo, com a desorganização, o lazer puro e simples, e as comunidades que se juntam para montar uma equipe para disputar um torneio local, jamais comparando a sua estrutura à de um clube profissional. Todavia, ao mergulharmos no complexo mundo do futebol varzeano, vemos que essa percepção não poderia estar mais longe da verdade. 

 
Ronomarcos Zinkoski, empresário de 50 anos, mais conhecido como Roni, personifica a evolução do futebol amador em Sorocaba. Natural do Paraná e radicado na cidade há quase três décadas, ele transformou uma paixão de infância — sendo o único de três irmãos a escolher uma bola como brinquedo —, em uma complexa atividade de gestão esportiva. Com um histórico que vai desde montar times no interior até compor a diretoria do E. C. São Bento, Roni viveu o ápice da várzea à frente do Enquadros, clube que ajudou a levar três finais consecutivas da Taça Cidade, a primeira divisão da várzea de Sorocaba e uma das mais competitivas ligas amadoras do Brasil.

 
Seu envolvimento começou nos anos 2000 e se intensificou a partir de 2012, quando integrou ao Enquadros. Aí foi quando a "brincadeira ficou séria", conta Roni. A partir daí, ele acompanhou o clube na ascensão da Terceira para a Primeira Divisão, em um projeto que culminou em três finais consecutivas na categoria principal e em títulos na categoria dos veteranos. No Enquadros, Roni foi presidente e diretor, e viu o clube crescer com categorias de Cinquentão, Quarentão e Veterano, inclusive com a participação de nomes renomados como o tetracampeão mundial Viola, Índio e Ademar.
Longe da informalidade, a gestão de um clube de várzea se assemelha, em muito, a um time profissional. Roni detalha que a organização começa com um estatuto que estabelece uma diretoria formal, com presidente, diretores de futebol, social e marketing. "É muito organizado. Quem já viu um time sabe que a organização no futebol amador hoje é bem interessante”, atesta.

 
“Este estatuto prevê a montagem do elenco, prevê que você tenha a construção de uma diretoria. Tem presidente, vice-presidente, diretores sociais, diretores de futebol, diretores de marketing, tudo, como se fosse um clube profissional”, complementa.

 
Essa complexa estrutura culmina na intensa rotina do dia de jogo, que era o momento mais especial para Roni. A manhã de domingo envolvia uma operação logística meticulosa: desde a divisão de tarefas, como buscar gelo, organizar o vestiário e uniformes, até a preparação do café para os jogadores e a coordenação da torcida, com cada pessoa da diretoria tendo sua função definida. "Tudo isso culminava para o dia do jogo”, resume Roni.

 
No entanto, a semelhança na organização contrasta drasticamente com a dificuldade em gerir os recursos. A diferença gritante entre o amador e o profissional, segundo Roni, está nos valores. O custo de uma temporada inteira de várzea pode ser inferior a um mês de despesas em um clube profissional, apesar dos altos valores praticados, hoje, na várzea. Sua maior dificuldade era justamente conseguir recursos para suprir a alta demanda de investimento exigida pela várzea atual, dada a escassez de tempo que a diretoria amadora tem para prospecção. “Uma equipe de baixo ou meio de tabela, hoje, vai gastar algo próximo a R$5 mil por partida, somente com jogadores. Uma equipe que briga pelo título chega a gastar R$20 mil.”

 
Para bancar os elencos que disputam as finais da Taça Cidade, os clubes da várzea se apoiam em um tripé financeiro: eventos, venda de materiais e patrocínios. “São as feijoadas, festas de pastel, e o popular ‘samba e pagode’ ajudam o caixa para manter a equipe”, explicou. A venda de produtos, como as camisetas de lançamento anual, funciona como um pré-lançamento de marketing: “Chegamos a vender 200 camisas em um pré-lançamento”, conta.

 
Os patrocínios são negociados por campeonato e, geralmente, pagos jogo a jogo. Os dirigentes fazem uma planilha de custos — que inclui os salários dos atletas —, e correm atrás do valor necessário. É nesse contexto de investimento que os salários por partida, para jogadores de alto nível, podem atingir R$2 mil ou R$3 mil. Roni é incisivo ao afirmar que “tem que investir” para brigar por títulos, embora o dinheiro, assim como no futebol profissional, não seja garantia de taça, mas sim de aumento de chance. “Quer bater nas finais e beliscar alguma coisa? Tem que investir.  Mas o investimento não dá garantia, precisa fazer um bom trabalho”, salientou Roni. “Porque se investimento desse garantia, o que mais investiu era o campeão. E não, não é assim, não é uma…, não é uma ciência exata.”

 
Além da folha de pagamento, o custo inclui a “cereja do bolo” do amador: o terceiro tempo. Este momento de confraternização pós-jogo é o que, na visão de Roni, “move” a várzea, sendo a parte mais apreciada por todos os envolvidos. “No amador, o terceiro tempo é a joia da coroa, né, a cereja do bolo.”

 
A gestão de jogadores, na várzea, revela uma curiosa inversão. Roni, que sempre teve facilidade em gerir pessoas, observa que o maior desafio da disciplina vem, muitas vezes, não dos ex-profissionais, mas sim dos “craques do amador”.
“Quanto maior for a carreira do jogador, mais fácil de lidar”, garante Roni. “Atletas que jogaram em alto nível, como Jailson, Alê, Correia, Viola, Índio e Ademar, são extremamente disciplinados, chegando mais cedo e cumprindo o combinado à risca, pois internalizaram a postura profissional.” Em contrapartida, o jogador que “só jogou amador e acha que deveria ter chegado na seleção brasileira tende a ser menos disciplinado, chegando atrasado e achando que não precisa se esforçar.”
A rotatividade do elenco é alta, visto que o pagamento é por jogo e não há vínculo empregatício. Para garantir a fidelidade, os dirigentes tentam montar um grupo principal de 15 a 16 atletas fixos. A questão da disciplina, contudo, exige pulso firme. Roni relembra ter tido que dispensar o camisa 10 de um time campeão veterano por indisciplina no vestiário, e até afastar um jogador profissional do São Bento que, em dia de folga, foi “jogar várzea no final de semana.”
Um dos temas mais recorrentes quando se fala de várzea é o risco de violência e as polêmicas que cercam o futebol amador, mas Roni faz questão de desmistificar a fama da várzea. “O futebol de várzea não é violento. As pessoas são violentas”, corrige.

 
Em 30 anos de várzea em Sorocaba e outras cidades, ele nunca foi agredido e credita a segurança à postura. “Se você tiver uma postura correta, ninguém vai chegar e te agredir do nada.” O segredo, explica, é não reagir às provocações, pois a violência em campo é quase sempre uma escalada que começa na resposta a um xingamento. Além disso, Roni garante que os problemas com manipulação de resultados e crime organizado, que ocorriam no passado, e muitos acreditam que ainda ocorrem, hoje não são mais uma realidade em seu círculo, garantindo que “tem um respeito lá fora entre os times, entre técnicos e dirigentes.”

 
Sobre a possibilidade de envolvimento de clubes com crimes organizados ou lavagem de dinheiro — uma ilação que, por vezes, ronda o futebol amador de alto investimento —, Roni é categórico ao refutar a associação. Ele argumenta que, embora os valores em jogo sejam altos, a estrutura de arrecadação da várzea é transparente e operacional, focada em cobrir os custos com atletas, material e eventos. A receita vem de fontes facilmente identificáveis, como a venda de centenas de camisetas em lançamentos anuais, a realização de feijoadas e festas, e os patrocínios negociados jogo a jogo. Em vez de dinheiro de origem duvidosa, a base financeira da várzea de Sorocaba, na visão do dirigente, é sustentada pela paixão de empresários locais e pela capacidade de a diretoria realizar eventos para bancar o espetáculo.
No universo do futebol de várzea, a paixão é, frequentemente, a principal moeda, e a figura do mecenas — ou do dirigente que assume a conta — é uma realidade. Roni revela que o ato de investir dinheiro próprio nos clubes acontece, muitas vezes, porque os dirigentes acabam “completando” o valor que falta no caixa para garantir que os compromissos com os jogadores sejam honrados, embora isso seja feito de forma pontual e rara em sua gestão, que era financeiramente bem estruturada.

 
Contudo, há casos de empresários que bancam a equipe integralmente, como o dono de uma transportadora em São Paulo, citado por Roni. Para esses indivíduos, o time de várzea transcende a gestão; ele se torna um hobby ou um projeto pessoal em que eles “gastam o seu dinheirinho”, assim como outros investem em aeromodelismo ou simuladores de corrida. Para muitos, a várzea é a válvula de escape e a forma de manter viva a chama do futebol.

 
A história de Roni, que uniu a paixão pela lateral-esquerda (a posição “que ninguém quer”) com a disciplina da gestão, é o retrato de como o futebol de várzea de Sorocaba se transformou em uma estrutura séria, organizada e de altos investimentos. Por trás da emoção do torcedor e das cifras gastas por jogo, existe uma complexa diretoria amadora que equilibra eventos, patrocínios e egos, garantindo que o espetáculo, no campo e no terceiro tempo, continue sendo o grande patrimônio da cidade.