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No peito e na raça: o desafio da imprensa para cobrir a várzea de Sorocaba


Por Pedro Egidio

O futebol de várzea em Sorocaba vem, nos últimos anos, deixando de ser apenas uma prática local e popular para se tornar um verdadeiro fenômeno social e esportivo. O que se observa, na cidade, é um notável crescimento na atividade e uma crescente profissionalização das ligas, times e competições, que ganham em organização, investimento e, consequentemente, em visibilidade. Com estruturas mais robustas e ambições cada vez mais grandiosas, a várzea sorocabana atrai a atenção de milhares de pessoas espalhadas por todo o estado.

 
Nesse cenário de evolução, a atuação da imprensa local e independente tem crescido exponencialmente, acompanhando a demanda por informação, transmissões de partidas e cobertura especializada. Impulsionada pela democratização da produção de conteúdo e, sobretudo, pela internet, a cobertura jornalística da várzea expandiu suas fronteiras e, hoje, é acessível a todos que gostam de acompanhá-la. Páginas, canais no YouTube, podcasts, perfis em redes sociais e transmissões ao vivo levam os lances, resultados, entrevistas e bastidores diretamente para a tela do celular do torcedor, dirigente e jogador. Este movimento não apenas amplifica e democratiza a audiência, mas também legitima e consolida a várzea como um fenômeno esportivo de grande relevância na cultura e no cotidiano sorocabano.

 
A cobertura jornalística do futebol amador de Sorocaba sempre foi relegada às pequenas notas nas sessões de esporte dos jornais tradicionais da cidade, mas apenas recebia uma atenção maior nos momentos decisivos da Taça Cidade, a primeira divisão da várzea sorocabana. Porém, nos últimos anos, com a constante popularização da cultura de várzea, novos produtos de comunicação surgiram na internet para atender à crescente demanda. Rodrigo da Silveira, técnico de informática, 45 anos, sempre acompanhou o futebol amador da região. Em 2014, começou a produzir pequenos vídeos dos melhores momentos de partidas do Gunhê, equipe do bairro de Brigadeiro Tobias. “Meu sogro era técnico do Gunhê e convidou meu irmão para ser auxiliar técnico. Comecei a fazer algumas tomadinhas dos jogos, a fazer os melhores momentos e o pessoal começou a gostar do trabalho que eu fazia”, contou Rodrigo. Os vídeos eram postados em seu próprio canal do YouTube, de nome “Rodrigo da Silveira”. Desde então, Rodrigo passou a produzir vídeos para outros clubes e se tornou referência na produção de conteúdo sobre a várzea de Sorocaba.


Rodrigo da Silveira no estúdio do "É da Várzea". Fonte: Pedro Egidio

Gravação do podcast "É da Várzea". Fonte: Pedro Egidio

Além do grande sucesso dos conteúdos produzidos na internet, a imprensa tradicional também acompanhou o crescimento do futebol amador de Sorocaba. Conversamos com Jesus Vicente, repórter do Portal Porque, que tem se dedicado a essa cobertura nos últimos anos, por iniciativa própria. “Lá [no Portal Porque] não tinha várzea. E o ‘Porque’ também dá essa liberdade. Quando você tem alguma ideia, eles geralmente falam: ‘vamos testar’, e estou fazendo várzea desde então.” Além de cobrir os jogos pessoalmente, Jesus apresenta vídeos semanais, no canal do YouTube do Portal Porque, falando sobre a rodada do final de semana.

Jesus Vicente apresentando programa "Bola na Rede". Fonte: Canal Portal Porque

Atualmente, é impossível falar sobre a atuação da imprensa na várzea sem contar a história de Andrey Polez, conhecido como “barba”, empresário de 26 anos e proprietário da empresa “barba na várzea”, que engloba diferentes contas especializadas em cobertura de várzea no YouTube e no Instagram. Andrey começou a trabalhar na comunicação em 2023, após abandonar a carreira de engenheiro. “Eu sou formado em engenheiro de produção e trabalhei cinco anos na CBA, quando a empresa me mandou embora, eu comecei”, contou Andrey.

 
O gosto pelo futebol sempre fez parte da vida dele. “Sempre tive amor por futebol, e cheguei a jogar na base de São Bento e do São Paulo também, mas não virei jogador de futebol. Então, fui estudar e trabalhar, em determinado momento, eu comecei a acompanhar a várzea.” Andrey conta que começou fazer as transmissões, pois não gostava de consumir os melhores momentos dos jogos gravados. “Eu não gosto de jogo gravado, gosto de jogo ao vivo e, a grande maioria, eram jogos gravados. E quando eu fiz o canal, comecei a fazer as transmissões”, completou Andrey.

 
Hoje, Andrey faz transmissões para todos os clubes que solicitam seus serviços, já que não existe um acordo centralizado para a transmissão de todas as partidas. Além da várzea de Sorocaba, Andrey já possui contrato com outras 19 prefeituras para transmissões de partidas, e sua equipe já conta com 35 pessoas.

 
Porém, mesmo com tantos avanços, as estruturas disponíveis para os profissionais de imprensa ainda são precárias. Jesus Vicente nos explicou sobre as dificuldades enfrentadas pelos profissionais. “Nos campos municipais, como o Brigadeiro Tobias e o Maria Eugênia, não existem cabines de transmissão, e o repórter trabalha espremido entre o alambrado e uma pequena faixa de terra de, no máximo, um metro e meio”, contou ele. Essa falta de controle e de espaços específicos força a imprensa a se adaptar, por exemplo, gravando e narrando de cima de barrancos, como acontece no Campo do Montenegro, e correndo o risco constante de levar uma bolada. No entanto, o repórter destaca que, mesmo sem uma estrutura física adequada, a cordialidade dos diretores é um ponto positivo, oferecendo água e um bom atendimento, além de uma crescente presença de fotógrafos e cinegrafistas que, juntos, estão “fazendo a estrutura” como podem, para fazer seus registros da várzea. Andrey nos contou sobre as soluções que sua equipe encontra para fazer as transmissões. “A gente mesmo leva os andaimes, as extensões, porque, às vezes, o ponto de energia é muito longe. Levamos uma cobertura para proteger a equipe do sol, isso tudo nós que precisamos levar na maioria das vezes. Não tem estrutura, a verdade é essa. Às vezes, você tem um local apropriado ou cabine, mas, em geral, não tem espaço para transmissão, isso eu falo nítido para você”, contou Andrey.  

 
Os problemas na estrutura não se limitam aos campos geridos pelos clubes, estendem-se até o Estádio Municipal Walter Ribeiro, em Sorocaba, que recebe as finais das competições. O estádio possui cabines de transmissão, usadas pela imprensa nos jogos profissionais. Entretanto, Wagner Silva, 47 anos, que faz parte da equipe do podcast “É da várzea”, que trabalhou como comentarista em transmissões do canal “Barba na várzea”, explicou sobre os problemas que os profissionais encontram para trabalhar no estádio. “As cabines não têm nada. São muito quentes e não tem nem um ventilador. Poderiam investir um pouco, nem internet tem para o pessoal fazer as transmissões”, contou Wagner.

 
Existem, é claro, algumas exceções. O campo do Jair, localizado no bairro do Caguassu, é um campo privado, administrado pelo empresário aposentado Jair Nogueira, e é alugado por clubes para o mando das partidas. Ao construir as estruturas, Nogueira fez questão de adicionar uma cabine de transmissão exclusiva, com acesso à internet via cabo, o que permite transmissões de alta qualidade.

 
A aceitação dos clubes de várzea em relação às transmissões e à produção de conteúdo online é descrita como uma relação de ambivalência e rápido crescimento. Segundo Andrey, a reação inicial foi mista, pois existia a dúvida de que a transmissão pudesse afastar o público dos campos. No entanto, ele argumenta que essa preocupação é infundada: “O cara que acompanha um clube há décadas, pessoal mais velho, ele não vai parar para assistir uma transmissão pra não ir ao campo, pelo contrário, ele vai ao campo e quando ele chegar em casa, ele quer assistir o que ele tava vendo.” Por outro lado, Rodrigo percebeu que os clubes, no geral, “querem muito isso”, a ponto de vários times buscarem ativamente seus serviços e perguntarem sobre os custos dos conteúdos.
Andrey resume que os “times desenvolvidos e times com projeto e projeção” veem as transmissões como uma ferramenta de marketing crucial para “divulgar patrocinadores” e facilitar o fechamento de novos apoios. Contudo, essa aceitação varia, pois Rodrigo observou que times que não conseguem contratar o serviço podem guardar “uma mágoa” do repórter quando ele cobre um rival, indicando que a mídia digital se tornou um elemento de status e, por vezes, de disputa entre os clubes de várzea.

 
O futebol de várzea em Sorocaba é um microcosmo complexo onde a paixão popular se choca com a necessidade de profissionalização. A atividade deixou de ser uma atividade informal para se transformar em um fenômeno social de altos investimentos, movido pela disciplina de dirigentes e pela capacidade dos clubes de gerar receita através de eventos e patrocínios.

 
Essa evolução, contudo, acontece a despeito das limitações estruturais. A imprensa, seja ela a tradicional, que se adapta, como Jesus Vicente; ou a especializada, que inova, como Andrey e Rodrigo, opera na base da improvisação para suprir a ausência de cabines e infraestrutura adequadas. Essa nova mídia, apesar de enfrentar os riscos de tumultos e a ambivalência dos clubes que – embora queiram a visibilidade, nem sempre oferecem condições de trabalho —, é o motor que legitima e amplifica o espetáculo. No fim, a várzea de Sorocaba se consolida como um produto esportivo completo: uma paixão de domingo, uma operação de bastidores sofisticada e, graças à internet, um fenômeno acessível a todos, provando que o esforço e a dedicação superam as carências de um campo que não tem medo de se reinventar.