O gosto pelo futebol sempre fez parte da vida dele. “Sempre tive amor por futebol, e cheguei a jogar na base de São Bento e do São Paulo também, mas não virei jogador de futebol. Então, fui estudar e trabalhar, em determinado momento, eu comecei a acompanhar a várzea.” Andrey conta que começou fazer as transmissões, pois não gostava de consumir os melhores momentos dos jogos gravados. “Eu não gosto de jogo gravado, gosto de jogo ao vivo e, a grande maioria, eram jogos gravados. E quando eu fiz o canal, comecei a fazer as transmissões”, completou Andrey.
Hoje, Andrey faz transmissões para todos os clubes que solicitam seus serviços, já que não existe um acordo centralizado para a transmissão de todas as partidas. Além da várzea de Sorocaba, Andrey já possui contrato com outras 19 prefeituras para transmissões de partidas, e sua equipe já conta com 35 pessoas.
Porém, mesmo com tantos avanços, as estruturas disponíveis para os profissionais de imprensa ainda são precárias. Jesus Vicente nos explicou sobre as dificuldades enfrentadas pelos profissionais. “Nos campos municipais, como o Brigadeiro Tobias e o Maria Eugênia, não existem cabines de transmissão, e o repórter trabalha espremido entre o alambrado e uma pequena faixa de terra de, no máximo, um metro e meio”, contou ele. Essa falta de controle e de espaços específicos força a imprensa a se adaptar, por exemplo, gravando e narrando de cima de barrancos, como acontece no Campo do Montenegro, e correndo o risco constante de levar uma bolada. No entanto, o repórter destaca que, mesmo sem uma estrutura física adequada, a cordialidade dos diretores é um ponto positivo, oferecendo água e um bom atendimento, além de uma crescente presença de fotógrafos e cinegrafistas que, juntos, estão “fazendo a estrutura” como podem, para fazer seus registros da várzea. Andrey nos contou sobre as soluções que sua equipe encontra para fazer as transmissões. “A gente mesmo leva os andaimes, as extensões, porque, às vezes, o ponto de energia é muito longe. Levamos uma cobertura para proteger a equipe do sol, isso tudo nós que precisamos levar na maioria das vezes. Não tem estrutura, a verdade é essa. Às vezes, você tem um local apropriado ou cabine, mas, em geral, não tem espaço para transmissão, isso eu falo nítido para você”, contou Andrey.
Os problemas na estrutura não se limitam aos campos geridos pelos clubes, estendem-se até o Estádio Municipal Walter Ribeiro, em Sorocaba, que recebe as finais das competições. O estádio possui cabines de transmissão, usadas pela imprensa nos jogos profissionais. Entretanto, Wagner Silva, 47 anos, que faz parte da equipe do podcast “É da várzea”, que trabalhou como comentarista em transmissões do canal “Barba na várzea”, explicou sobre os problemas que os profissionais encontram para trabalhar no estádio. “As cabines não têm nada. São muito quentes e não tem nem um ventilador. Poderiam investir um pouco, nem internet tem para o pessoal fazer as transmissões”, contou Wagner.
Existem, é claro, algumas exceções. O campo do Jair, localizado no bairro do Caguassu, é um campo privado, administrado pelo empresário aposentado Jair Nogueira, e é alugado por clubes para o mando das partidas. Ao construir as estruturas, Nogueira fez questão de adicionar uma cabine de transmissão exclusiva, com acesso à internet via cabo, o que permite transmissões de alta qualidade.
A aceitação dos clubes de várzea em relação às transmissões e à produção de conteúdo online é descrita como uma relação de ambivalência e rápido crescimento. Segundo Andrey, a reação inicial foi mista, pois existia a dúvida de que a transmissão pudesse afastar o público dos campos. No entanto, ele argumenta que essa preocupação é infundada: “O cara que acompanha um clube há décadas, pessoal mais velho, ele não vai parar para assistir uma transmissão pra não ir ao campo, pelo contrário, ele vai ao campo e quando ele chegar em casa, ele quer assistir o que ele tava vendo.” Por outro lado, Rodrigo percebeu que os clubes, no geral, “querem muito isso”, a ponto de vários times buscarem ativamente seus serviços e perguntarem sobre os custos dos conteúdos.
Andrey resume que os “times desenvolvidos e times com projeto e projeção” veem as transmissões como uma ferramenta de marketing crucial para “divulgar patrocinadores” e facilitar o fechamento de novos apoios. Contudo, essa aceitação varia, pois Rodrigo observou que times que não conseguem contratar o serviço podem guardar “uma mágoa” do repórter quando ele cobre um rival, indicando que a mídia digital se tornou um elemento de status e, por vezes, de disputa entre os clubes de várzea.
O futebol de várzea em Sorocaba é um microcosmo complexo onde a paixão popular se choca com a necessidade de profissionalização. A atividade deixou de ser uma atividade informal para se transformar em um fenômeno social de altos investimentos, movido pela disciplina de dirigentes e pela capacidade dos clubes de gerar receita através de eventos e patrocínios.
Essa evolução, contudo, acontece a despeito das limitações estruturais. A imprensa, seja ela a tradicional, que se adapta, como Jesus Vicente; ou a especializada, que inova, como Andrey e Rodrigo, opera na base da improvisação para suprir a ausência de cabines e infraestrutura adequadas. Essa nova mídia, apesar de enfrentar os riscos de tumultos e a ambivalência dos clubes que – embora queiram a visibilidade, nem sempre oferecem condições de trabalho —, é o motor que legitima e amplifica o espetáculo. No fim, a várzea de Sorocaba se consolida como um produto esportivo completo: uma paixão de domingo, uma operação de bastidores sofisticada e, graças à internet, um fenômeno acessível a todos, provando que o esforço e a dedicação superam as carências de um campo que não tem medo de se reinventar.