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Dupla Jornada do Futebol

Por Luiz Oliveira

O futebol brasileiro é um berço de grandes histórias, e a trajetória de Diego Barros é um exemplo vívido da relação entre o futebol profissional e a paixão da Várzea. Para muitos, o caminho é direto, começando nas categorias de base até o time principal. Para Diego foi diferente, começando em times da Várzea em Tatuí.
Diego rodou por 12 clubes profissionais, sendo alguns deles: São Paulo, Remo, Cuiabá e o Pyunik da Armênia. Atualmente, é diretor de Esportes da Prefeitura de Tatuí e comanda o Projeto Bom de Bola, que atende diversas crianças até aos 18 anos de idade, visando trabalhar dentro e fora do campo, treinando futuras gerações de jogadores.

 

 

Da Várzea para o Profissional e o seu Retorno

"A minha base pro profissional foi a Várzea," revela Diego, que aos 16 anos de idade já disputava o Amador do estado de São Paulo por equipes de Tatuí. Essa formação diferente marcou o início de sua carreira, mas exigiu um período maior de adaptação ao profissionalismo.
"Eu tive um período ainda de adaptação quando eu me profissionalizei realmente, um tempo para entender o ritmo, de entender o jeito do jogo em si, do futebol profissional, que ele é muito mais detalhado, digamos assim. Na Várzea, é um pouco mais aberto”, comenta Diego.
A disciplina tática e a responsabilidade das ações são as principais diferenças apontadas por Diego. No entanto, é na Várzea que ele encontra a "irresponsabilidade" que faz falta no profissional, a coragem de arriscar um drible sem o medo de errar, algo que o futebol de elite está se extinguindo. 
Após 13 anos no futebol profissional, Diego encerrou a carreira aos 31 anos de idade e retornou à Várzea, no qual ele precisou de um novo período de readaptação. " Era preciso desaprender parte da rigidez tática e se reconectar com a espontaneidade que define o jogo amador”, diz Diego.


 

A Filosofia de Formação: Não Apenas Atletas


Diego critica a cultura da competição excessiva nas categorias de base, que prioriza a vitória imediata em detrimento do desenvolvimento pleno da criança. "O pai, a mãe ficam tão preocupados em competição e resultado dentro do futebol, que esquecem que o filho vai ser muito mais promissor além dos gramados. Nós usamos as ferramentas para tentar entregar um cidadão melhor para a sociedade”, comenta Diego.
Diego complementa: “A meta é formar o jogador com coragem, desenvoltura e autonomia, ensinando o menino a tomar decisões””, em um estilo que ele chama de "futebol com coragem." Muitos ex-alunos de Diego estão ocupando cargos como engenheiros, advogados e no Recursos Humanos de grandes empresas, provando que o sucesso não se limita à carreira nos gramados.


O Poder Financeiro e a Modernização da Várzea


Longe de ser apenas um passatempo, a Várzea de hoje exige profissionalismo e oferece atrativos financeiros.

"Hoje, a Várzea também não permite mais aquela boleragem, o cara amanhecer na rua e achar que consegue jogar Várzea no dia seguinte. Até porque o investimento é muito alto na Várzea hoje," explica Diego. 
Ele ressalta que muitos atletas de divisões inferiores (Série D, estaduais sem divisão) preferem a Várzea pela segurança de receber o dinheiro "após o jogo", o que, muitas vezes, não acontece em clubes profissionais com dificuldades financeiras.
Outra diferença que Diego ressalta é a mídia, na qual era muito diferente de quando começou. " A velocidade da informação e as transmissões via YouTube aproximaram a Várzea do público, elevando sua visibilidade e, consequentemente, o nível de investimento”, comenta Diego.
Apesar da diferença estrutural em relação à Série A e B, Diego compara a realidade de muitos clubes menores à da Várzea. "A grande realidade da maioria dos clubes brasileiros é muito parecido com o que se encontra em algumas estruturas na Várzea, muitos com campos menores, onde o jogador tem dois empregos, salários baixos, entre outras coisas" afirma Diego, reforçando que essa essência mais simples não deve ser perdida.


O Projeto Social Bom de Bola: Atendimento Amplo e Gratuito

Seu trabalho como profissional continua no Projeto Bom de Bola, que hoje atende aproximadamente 300 crianças gratuitamente. O projeto, que funciona como uma iniciativa da Prefeitura de Tatuí, recebe jovens de 10 cidades da região (como Sorocaba, Votorantim, Tietê e Itapetininga).
O Bom de Bola atende crianças dos 4 ou 5 anos até os 18 anos de idade, separando-as por faixas etárias. O trabalho é dividido entre o projeto social e o alto rendimento, respeitando o momento e o objetivo de cada criança.

 

Inclusão Feminina com Regras Claras

Apesar de o universo do futebol feminino ser menor na região, o projeto atende meninas e tem sido um sucesso. "Os resultados que a gente tem no feminino são os maiores que a gente tem”, comenta Diego.
Diego ressalta a importância de integrar as meninas com regras claras: a troca de roupa é separada, mas, no treinamento e na atividade, o mesmo trabalho é aplicado a meninos e meninas, estimulando o crescimento e o desenvolvimento de todas. Ex-alunas do projeto já estão em clubes como o SESI (Sub-15 e Sub-17) e São Bento, de Sorocaba.


Mais do que a carreira profissional, Diego Barros afirma que a vida pós-futebol é muito mais gratificante. "Eu hoje entendi o grande propósito da minha vida. Meu dia, ele tem ali 14 horas de muita vida. Eu amo o que eu faço."
Essa paixão por formar, contribuir com a sociedade e ser um exemplo para suas filhas e pais de alunos, é o grande presente de sua jornada: "Eu me sinto um privilegiado por isso... Eu faço o que eu amo.", diz Diego. Sua missão é clara: usar o futebol para dar aos jovens a ferramenta de que precisam para serem bem-sucedidos na vida, independentemente do caminho que escolherem.
Se a Várzea foi sua base profissional, o trabalho de formação é a missão de vida de Diego Barros. Há 15 anos no papel de treinador, ele enxerga o futebol como uma poderosa ferramenta social, muito além da busca por resultados.


Diego Barros, da várzea ao profissional e o retorno para treinar o futuro.

 

 

Diego Barros, capitão pelo Remo
Fonte: Acervo do Globo Esporte

 

 

Equipe "Bom de Bola" classificados para disputar um campeonato internacional na Espanha.
Fonte: Prefeitura de Tatuí.