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Do campo profissional ao terrão da várzea

Por Imar Caike Coelho
Após chegarem em uma idade que não há como competir com os mais novos, atletas com passagens por grandes clubes do Brasil, até mesmo a amada “amarelinha”, reencontram a felicidade em continuar a marcar gol em campos amadores e longes dos grandes salários.

Futebol, o esporte mais popular do mundo, com um público de bilhões de torcedores. Muitos sonham em estar entre as quatro linhas representando um time oficial ou seu país, mas, com a grande concorrência, nem todos conseguem chegar ao profissional, assim, encontram a solução de continuar sonhando em ser um atleta dentro dos campos de várzea, o futebol amador. Muitos jogadores começaram suas carreiras em campos varzeanos e, hoje, estão no profissional, mas o que acontece quando as luzes dos grandes estádios se apagam? Ou quando o rendimento começa a cair e os mais novos começam a ter mais espaços que os veteranos?

Muitos encontram no futebol de várzea um refúgio, após não conseguirem se concretizar como profissional. Por outro lado, muitos atletas, no fim de suas carreiras, aposentam-se e continuam em atividade, mas em campos varzeanos. Com torcidas diferenciadas: composta por famílias, amigos e moradores locais pelas laterais dos campos, mas, com a mesma vibração e grito apaixonado com as cores que representam o bairro no peito.

Dentro de campo, 22 jogadores, mas, para quem assiste do lado de fora do campo, pode observar que alguns se destacam com a facilidade que possuem com a bola nos pés e, quando se fixa um pouco o olhar, logo reconhece os rostos e percebe quem são: grandes jogadores que fizeram história em times renomados do Brasil.

Com uma carreira goleadora e vitoriosa, 219 gols em sua bagagem; uma Libertadores; passagens na seleção Brasileira e em times como Santos, Internacional, Cruzeiro e Flamengo, Leandro Damião, cinco meses após sua aposentadoria, com 36 anos, fechou com o A. A. Vila Helena, um dos maiores times de várzea de Sorocaba.

Leandro Damião no campo do A. A. Vila Helena pelo jogo do campeonato Taça Cidade.
Fonte: Imar Caike Coelho

Para a maioria dos jogadores, atuar na várzea representa mais do que só se manter competindo ou se manter em forma. Para Damião, a sua maior motivação é poder voltar para onde tudo começou, poder rever e jogar com grandes amigos como havia prometido anos atrás que jogariam juntos. “Aqui é minha casa, há 20 anos eu estava aqui na várzea, até os meus 17, 18 anos, demorei para conseguir virar profissional, consegui! Graças a Deus, tive uma carreira vitoriosa e, agora, estou voltando aqui”, diz Damião.

Com muito carisma, o jogador elogia o time do Vila Helena, “o Vila Helena é um grande clube, tem muitos jogadores importantes, jogadores de qualidade, isso facilita.” E comenta sobre sua recepção calorosa na cidade, com seu sotaque do sul do país: “Bacana, é bacana demais, mas também, a cidade de Sorocaba está de parabéns, a segurança e todo o controle que tem”, acrescentou.

E Damião não está sozinho em seu retorno à várzea. Em Sorocaba, encontra seu antigo conhecido de profissão, Cristian Baroni, ex-volante de clubes como Corinthians, Flamengo e Fenerbahce da Turquia, hoje, seu adversário na temporada da Taça Cidade Sorocaba 2025.

Cristian Baroni na partida do Dalmatas F.C. x A.A. Vila Helena, pela 6° rodada da 1° divisão do campeonato de pontos corridos de Sorocaba.
Fonte: Imar Caike Coelho

Defendendo o Dalmatas F.C., time tradicional do bairro Cajuru, Baroni tem um olhar profissional em relação ao futebol de várzea. Para ele, a ideia de que o futebol amador tem menos pressão que o profissional é um mito. No intervalo, logo após marcar um gol na partida em que estava liderando o placar, mostrou-nos que a sua busca pelo resultado é tão intensa quanto nos tempos de profissional. “Futebol é igual em todo lugar, na várzea, você vê que o campo está lotado, então, essa sensação de pressão tem em todo canto! Estamos acostumados com isso, então, é tudo muito natural também, mas é gostoso estar aqui e sentir essa sensação”, diz Cristian.

Essa mentalidade causa impacto nos jogadores que dividem o campo com atletas tão experientes. É o caso do Arian Souza, jogador há sete anos da várzea e, agora, companheiro do Baroni, descreve a sensação de jogar ao lado de alguém que antes via apenas por televisão. “Eu sou corinthiano, então, para mim, eu o vejo como um ídolo, entendeu? Não dá nem para acreditar, cara, é uma satisfação única”, afirma Arian.

Já, na cidade vizinha, em Votorantim, encontramos a história do Ricardo Martins de Araújo, mais conhecido como Kadu, zagueiro recentemente campeão do Campeonato Brasileiro série B pela Chapecoense, em 2020. Ainda profissional, atuando pelo C. A. Penapoleanse, do interior de São Paulo, encontrou na várzea de Votorantim, uma maneira de se manter ativo durante sua pausa na carreira para terminar seus estudos.

Kadu após o apito final do jogo dos Veteranos 2025, pelo Flamengo F. C. Votorantim, que saiu vitorioso por 7 x 2 com gol marcado!
Fonte: Imar Caike Coelho

Após dar uma pausa em sua carreira para focar no término de sua graduação, Kadu, que nos dias de semana estava focado nos estudos, através de um convite do seu amigo que mora em Sorocaba, passou a jogar no time veterano do Flamengo, de Votorantim, e ajudá-los no campeonato.

Para o zagueiro, jogar na várzea é mais do que manter a forma. Enquanto o foco está nos estudos, também é uma fonte de alegria. “Igual eu falo para minha esposa, eu me divirto aqui, sabe? Eu me sinto feliz e eu venho com muito amor e carinho para poder ajudar, porque, sempre, por trás de uma camisa, tem uma história, tem uma comunidade, então, tenho que ter responsabilidade”, diz o jogador. E finaliza dizendo que, mesmo o foco sendo a faculdade, ele se sente alegre e, nos fins de semana, acaba indo ao show amador.

Mesmo sendo o fim de um ciclo da trajetória desses jogadores, eles continuam fazendo o que sempre fizeram e continuam com muito amor e disciplina, trazendo todo seu conhecimento aos bairros e competições amadoras.

Quer saber mais sobre os times abordados na reportagem? Ou quem sabe, apoiar e torcer? 
Então, fiquem ligados nas redes sociais do Vila Helena, Dalmatas e Flamengo de Votorantim!

A.A. Vila Helena

Dalmatas F.C.

Flamengo F.C. Votorantim