"Você, Deus e dois amigos": a ingloriosa jornada do árbitro no coração da várzea de Sorocaba
Por Pedro Egidio
O futebol de várzea, em Sorocaba, é mais do que um campeonato: é um patrimônio de paixão, rivalidade e tradição que pulsa nos campos de cada bairro. No entanto, por trás da emoção do torcedor e da garra dos jogadores, há uma equipe que entra em campo sob pressão máxima a cada apito inicial: a arbitragem.
Do amador ao profissional, a função do juiz é ingrata, e serve para nos ajudar a entender como a paixão incondicional pelo esporte motiva os mais diferentes caminhos. Ao contrário dos jogadores, que recebem o apoio de metade do público, dividido entre as duas equipes que participam, o juiz e a sua equipe recebem vaias e xingamentos de todos os envolvidos, e são responsabilizados, muitas vezes, pelos fracassos que essas equipes obtêm em campo. Ainda assim, seu trabalho é crucial para o andamento da partida, e uma má atuação pode ser a morte de toda uma carreira. Nos campos de várzea, as situações enfrentadas pelas equipes de arbitragem são, por vezes, um retrato daquilo que há de mais nefasto no mundo do futebol.
O caminho para se tornar árbitro de futebol, normalmente, é trilhado por aqueles que praticavam o esporte, e que encontram, na arbitragem, uma jornada para continuar seu envolvimento com o futebol, talvez, até permitindo-o chegar ao nível profissional. Reinaldo Nunes da Silva, aposentado de 60 anos, começou a carreira por convite de amigos com quem jogava nos anos 1980, e passou a criar gosto pela coisa. “Eu sempre joguei bola, era centro-avante, e vinha para Sorocaba para jogar na várzea. Então, alguns amigos me convidaram para apitar um amistoso entre Tupi e Paulistano, no Vila Gabriel, porque eu gostava de acompanhar os árbitros”, conta Reinaldo.
“Eu morava em São Paulo e vinha para Sorocaba para jogar, gostava de apitar as partidas que aconteciam depois dos meus jogos.” Reinaldo nos conta que foi, também, pelo incentivo de outro juiz renomado, que decidiu seguir com a carreira. Mas, além disso, a sua então situação de desemprego também foi determinante para ter aceitado o convite. “O Joaquim Portela, que apitava na várzea, famoso na época, me chamou e falou: ‘você apita bem, meu. Quer apitar com a gente?’ E eu estava desempregado na época e fui, aí estreei na segunda divisão dos veteranos".
Reinaldo (à esquerda) apitando nos anos 90. Fonte: Acervo pessoal.
O processo de formação de um árbitro vai além de um passado nos campos, sempre foi necessário para que quem desejasse começar a apitar, buscasse qualificações e certificações. José Barros, árbitro aposentado de 65 anos, começou a carreira com um curso de arbitragem em Mairinque. José também apitou jogos da várzea em São Roque e Alumínio. “Cheguei em São Paulo em 1981 e fiz o curso de árbitro de futebol aqui na cidade Mairinque na época e, assim que peguei o diploma, comecei a apitar o campeonato regional", explicou.
Hoje, a exigência pela formação se mantém. Leandro de Oliveira, árbitro de 33 anos, conhecido como “Alemão”, explicou que “na várzea hoje, eles exigem, pelo menos, o cursinho de arbitragem administrado pela prefeitura." Já Reinaldo, contou que, por morar em São Paulo quando começou a apitar, fez “o curso da Federação Paulista de Futebol e fui crescendo na carreira.”
Além de qualificar o árbitro nas regras do jogo, essas qualificações são necessárias, também, para prepará-lo para a difícil jornada que os aguarda. Para qualquer um que decidir ir a algum jogo de futebol, fica fácil de entender a pressão que a equipe de arbitragem sofre a cada lance apitado.
“Pressão sempre teve”, explicou Reinaldo. “Os caras xingavam, davam risada. Eu ia apitar lá, chamava de porco de pé e de tudo mais que você pode pensar", completou ele, referenciando o fato de os torcedores usarem seu peso como ofensa. Mas, quem decide seguir essa carreira, aprende a lidar com isso, e passa a desenvolver maneiras de conquistar o respeito daqueles que estão no campo de jogo.
“Xingamento a gente recebe todo dia”, contou Alemão, “então, pra lidar com isso, a gente tem que ter calma, saber a hora de punir e saber pôr limites para até onde eles podem falar com a gente, com respeito. A gente também respeitando eles, eles respeitam também”, completou o árbitro. Os árbitros ainda ressaltam que os atletas tendem a respeitar um pouco mais os juízes que também jogam, ou jogaram, no passado, em clubes de várzea. “Por ser meio malandro na arbitragem, pô, joguei com os caras da primeira divisão, então, eles respeitavam mais”, explicou Reinaldo.
Porém, essa pressão, muitas vezes, torna-se uma situação de violência, e o árbitro de várzea corre esse risco em todas as partidas que atua. “Nunca ninguém me agrediu”, disse José, “mas uma vez, os cara falou que eu tinha roubado para um dos times, aí eu tive que sair escoltado dentro da Brasília, que na época era o carro de polícia”, completou ele. Reinaldo também compartilhou uma visão semelhante sobre esse risco que o árbitro corre em sua atividade. “Comigo, graças a Deus, nunca aconteceu. Mas já tive colegas meus que sim, que foram agredidos. Teve amigo meu que chegou a sair desmaiado de campo, de ambulância, outro que saiu de camburão. Infelizmente, isso pode acontecer”, contou ele.
Reinaldo ainda relembrou de um juiz que usava uma tática um tanto inusitada para se proteger. “O Joaquim Portela, que me introduziu à arbitragem. Ele era malandro e apitava armado.” Todavia, apesar de nunca ter sido agredido, Reinaldo conta de quando a situação chegou próxima a isso. “Tem uma história, acho que foi o Nova York e Barcelona, no Estrada, final, que os caras queriam nos agredir. Eu estava de árbitro reserva. Aí, teve um tumulto que os caras queriam agredir os árbitros da partida. O jogo não terminou. Entrou torcida, entrou jogador, se estendeu pro vestiário. Foi um dia difícil pra gente.”
Reinaldo, todavia, salienta que a pressão faz parte da vida de um juiz. “A partir do momento que você se prontifica a ser árbitro, você tem que trabalhar seu emocional, porque tudo está sujeito a acontecer. Pode ser torcida, pode ser time adversário, pode ser jogador, diretoria. Então, depende da partida, depende dos auxiliares com quem você está trabalhando. Não tem como você prever.” Apesar disso, Reinaldo alega que é necessário que os organizadores dos campeonatos, assim como a prefeitura, poderiam fornecer melhores condições de segurança, principalmente, em Sorocaba, onde as partidas não recebem viaturas da Guarda Civil Municipal, como acontece em Votorantim. “Então é isso, você tem que usar as regras que você tem. A federação, você é obrigado a fazer isso, você não tem muita estrutura e segurança. Na várzea, é você e Deus e dois amigos – referenciando aos auxiliares, normalmente, chamados de “bandeirinhas”.
Os problemas, porém, vão além de possíveis situações de violência. Reinaldo conta sobre casos em que os próprios dirigentes dos clubes abordavam os árbitros oferecendo quantias em troca da manipulação de resultados, o que, indubitavelmente, aumentava o risco para a segurança dos árbitros. “Tinha isso sim. Tinha alguns times que vinham até você pra conversar, oferecer algo. Até em uma final, um dos times me procurou. Eu falei, ‘ó, pela amizade que eu tenho com vocês, eu joguei bola no time de vocês e conheço o outro lado, eu não aceito’. Mas já tive jogo de ficar sabendo que um bandeirinha meu tinha pegado dinheiro dos caras. Era complicado”, conta Reinaldo.
Alemão em partida válida pela Taça Cidade de Sorocaba.
Fonte: Pedro Egidio
Alemão e seus auxiliares.
Fonte: Pedro Egidio
Alemão, porém, alega que isso é coisa do passado. “Comigo, nunca teve, cara. Tem um respeito lá fora entre os times, entre técnicos, dirigentes, todos se conhecem, e então, hoje em dia, a várzea é muito aberta, não tem como você falar que tal pessoal pegou dinheiro porque todo mundo tá assistindo, tem filmagem, então, se você cometeu um erro que vai ajudar um time e prejudicar o outro, você vai se queimar na arbitragem.”
Além das qualificações, um árbitro também precisa se manter em forma para conseguir atuar em alto nível e se proteger de possíveis pressões e violências. Esse aspecto, porém, é um dos elementos que mais evoluíram no contexto da arbitragem de uma maneira geral, indo além da várzea. Reinaldo e José, árbitros que atuaram nas décadas de 1980 e 1990, comentam que a condição física dos árbitros não era algo comentado ou exigido pelos campeonatos. “Eu sempre fui gordinho. Então, o torcedor brincava bastante”, contou Reinaldo. “Então, tinha, às vezes, dificuldade, minha dificuldade de correr um pouquinho, mas tinha colocação. Você se colocar bem em campo. Agora, você que está preparado fisicamente, não pode ser abalado com cansaço também?”, completou ele. “Hoje, todo mundo corre, antes você nem corria, corria para o bar, corria para a mulher, no máximo”, brincou Reinaldo.
José conta que, em sua época, “de preparação física assim não tinha nada. Já aconteceu eu apitar até três jogos por dia, de manhã, na parte da tarde e outro na parte das 4h da tarde. Eu não bebia (álcool), mas preparo físico não tinha nada, era só trabalho de dia de semana e, fim de semana, ia apitar jogo sem preparo nenhum.” Já Alemão conta que leva a preparação física bastante a sério, e trabalha com um treinador para manter o condicionamento físico. “É bastante desgastante, às vezes, a gente faz até três, quatro jogos no dia, até sem almoçar, só com café da manhã”, contou o árbitro. E ainda acrescentou, “Só que a gente se prepara bem na semana, faz uns treinos pesados. Eu tenho um grande amigo meu que me treina, professor Wagner Dias, um excelente profissional que me passa os treinos na semana, me preparando pra estar correndo bem nos jogos.”
A crescente profissionalização da várzea em Sorocaba, contudo, revela um contraste notório na distribuição de recursos. Enquanto clubes de ponta, buscando excelência e títulos, chegam a investir até R$20 mil por partida com atletas — desconsiderando outros profissionais como massagistas, técnicos e auxiliares —, a remuneração de quem mantém a ordem em campo ainda é vista como defasada. Por partida, um árbitro pode receber cerca de R$150 por sua atuação, enquanto os bandeirinhas recebem R$80 por jogo. Para Alemão, esta é uma equação que precisa ser revista, mas que também exige contrapartida. Ele pondera que, "vendo quanto os times gastam, eu acho que poderia ser melhor. Mas, para chegar no nível de ser melhor, a gente também tem que se preparar do mesmo jeito. Se o time gasta bem e a gente quer receber bem também, tem que estar preparado fisicamente, mentalmente, e assim por diante.” A fala de Alemão resume um desafio central: a arbitragem busca uma valorização financeira que esteja à altura da importância e do investimento geral da várzea, reconhecendo que essa melhoria ajudará no aprimoramento contínuo em sua própria performance e qualificação.
O futebol de várzea em Sorocaba, em sua fase de notável crescimento e profissionalização, coloca em evidência a figura do árbitro como o elo mais frágil de uma cadeia de paixão e altos investimentos. A jornada de juízes, como Reinaldo, José e Alemão, é um testemunho da dedicação incondicional ao esporte, uma escolha que, muitas vezes, nasceu nos próprios gramados, mas que exige preparo físico, mental e resiliência para lidar com a pressão, as ofensas e, em casos extremos, a violência.
O contraste entre as dezenas de milhares de reais gastos pelos clubes por jogo e o que é pago aos juízes não é apenas uma questão de números; é um reflexo da urgência em tratar a arbitragem como um componente essencial, e não um acessório da várzea. A exigência de maior segurança — com a presença de autoridades públicas nos campos — e a busca por remuneração mais justa, como defendido por Alemão, são passos cruciais para que a excelência almejada pelos times seja espelhada, também, na qualidade e no respeito aos profissionais do apito.
Assim, o futuro da várzea sorocabana depende de um reconhecimento integral de todos os seus atores. Se a paixão leva os jogadores ao campo, é a segurança e a valorização que garantirão que os árbitros continuem a trilhar a jornada, muitas vezes, ingrata, mas fundamental para garantir que o espetáculo continue, apito após apito, sem que o medo ou a desvalorização ameacem interromper o patrimônio mais genuíno do futebol local.