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Alemão, porém, alega que isso é coisa do passado. “Comigo, nunca teve, cara. Tem um respeito lá fora entre os times, entre técnicos, dirigentes, todos se conhecem, e então, hoje em dia, a várzea é muito aberta, não tem como você falar que tal pessoal pegou dinheiro porque todo mundo tá assistindo, tem filmagem, então, se você cometeu um erro que vai ajudar um time e prejudicar o outro, você vai se queimar na arbitragem.”

 
Além das qualificações, um árbitro também precisa se manter em forma para conseguir atuar em alto nível e se proteger de possíveis pressões e violências. Esse aspecto, porém, é um dos elementos que mais evoluíram no contexto da arbitragem de uma maneira geral, indo além da várzea. Reinaldo e José, árbitros que atuaram nas décadas de 1980 e 1990, comentam que a condição física dos árbitros não era algo comentado ou exigido pelos campeonatos. “Eu sempre fui gordinho. Então, o torcedor brincava bastante”, contou Reinaldo. “Então, tinha, às vezes, dificuldade, minha dificuldade de correr um pouquinho, mas tinha colocação. Você se colocar bem em campo. Agora, você que está preparado fisicamente, não pode ser abalado com cansaço também?”, completou ele. “Hoje, todo mundo corre, antes você nem corria, corria para o bar, corria para a mulher, no máximo”, brincou Reinaldo.

 
José conta que, em sua época, “de preparação física assim não tinha nada. Já aconteceu eu apitar até três jogos por dia, de manhã, na parte da tarde e outro na parte das 4h da tarde. Eu não bebia (álcool), mas preparo físico não tinha nada, era só trabalho de dia de semana e, fim de semana, ia apitar jogo sem preparo nenhum.” Já Alemão conta que leva a preparação física bastante a sério, e trabalha com um treinador para manter o condicionamento físico. “É bastante desgastante, às vezes, a gente faz até três, quatro jogos no dia, até sem almoçar, só com café da manhã”, contou o árbitro. E ainda acrescentou, “Só que a gente se prepara bem na semana, faz uns treinos pesados. Eu tenho um grande amigo meu que me treina, professor Wagner Dias, um excelente profissional que me passa os treinos na semana, me preparando pra estar correndo bem nos jogos.”

 
A crescente profissionalização da várzea em Sorocaba, contudo, revela um contraste notório na distribuição de recursos. Enquanto clubes de ponta, buscando excelência e títulos, chegam a investir até R$20 mil por partida com atletas — desconsiderando outros profissionais como massagistas, técnicos e auxiliares —, a remuneração de quem mantém a ordem em campo ainda é vista como defasada. Por partida, um árbitro pode receber cerca de R$150 por sua atuação, enquanto os bandeirinhas recebem R$80 por jogo. Para Alemão, esta é uma equação que precisa ser revista, mas que também exige contrapartida. Ele pondera que, "vendo quanto os times gastam, eu acho que poderia ser melhor. Mas, para chegar no nível de ser melhor, a gente também tem que se preparar do mesmo jeito. Se o time gasta bem e a gente quer receber bem também, tem que estar preparado fisicamente, mentalmente, e assim por diante.” A fala de Alemão resume um desafio central: a arbitragem busca uma valorização financeira que esteja à altura da importância e do investimento geral da várzea, reconhecendo que essa melhoria ajudará no aprimoramento contínuo em sua própria performance e qualificação.

 
O futebol de várzea em Sorocaba, em sua fase de notável crescimento e profissionalização, coloca em evidência a figura do árbitro como o elo mais frágil de uma cadeia de paixão e altos investimentos. A jornada de juízes, como Reinaldo, José e Alemão, é um testemunho da dedicação incondicional ao esporte, uma escolha que, muitas vezes, nasceu nos próprios gramados, mas que exige preparo físico, mental e resiliência para lidar com a pressão, as ofensas e, em casos extremos, a violência.

 
O contraste entre as dezenas de milhares de reais gastos pelos clubes por jogo e o que é pago aos juízes não é apenas uma questão de números; é um reflexo da urgência em tratar a arbitragem como um componente essencial, e não um acessório da várzea. A exigência de maior segurança — com a presença de autoridades públicas nos campos — e a busca por remuneração mais justa, como defendido por Alemão, são passos cruciais para que a excelência almejada pelos times seja espelhada, também, na qualidade e no respeito aos profissionais do apito.

 
Assim, o futuro da várzea sorocabana depende de um reconhecimento integral de todos os seus atores. Se a paixão leva os jogadores ao campo, é a segurança e a valorização que garantirão que os árbitros continuem a trilhar a jornada, muitas vezes, ingrata, mas fundamental para garantir que o espetáculo continue, apito após apito, sem que o medo ou a desvalorização ameacem interromper o patrimônio mais genuíno do futebol local.