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A nova vitrine da várzea: como as redes sociais impulsionam o futebol amador em Sorocaba

Por Kauã Rocha

Kauã Bueno entrevistando Leandro Damião, ex-profissional atuando na várzea pelo time A. A. Vila Helena.
Fonte: Acervo Pessoal

Em um campo de terra batida, longe dos grandes estádios e da cobertura da imprensa tradicional, o futebol de várzea em Sorocaba ganhou um aliado poderoso: as redes sociais. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube têm se tornado ferramentas fundamentais para divulgar campeonatos, valorizar jogadores e conectar torcedores a um universo antes invisível à mídia. É nesse cenário que atua Kauã Bueno, de 20 anos, estudante de jornalismo na Universidade de Sorocaba e social media autônomo que encontrou, na várzea, uma porta de entrada para o jornalismo esportivo e uma forma de revolucionar a maneira como esse futebol é consumido.

“Se os jogadores começam a carreira na várzea, por que os jornalistas não podem também?”, questiona Kauã, relembrando o momento em que percebeu o potencial desse tipo de cobertura. Apaixonado por esportes desde a adolescência, ele já produzia conteúdo em um podcast durante o ensino médio. Na universidade, buscou caminhos na cobertura esportiva, mas enfrentou obstáculos típicos da área: credenciamentos difíceis, pouco acesso e barreiras para entrar nos estádios.

Tudo mudou quando foi convidado para cobrir uma partida de várzea. Lá, encontrou liberdade para registrar o que quisesse: dentro do campo, nos vestiários, nas arquibancadas. "Foi ali que percebi o potencial de contar histórias desse futebol que pulsa nas periferias", relata.

A força das redes

A cobertura de futebol amador sempre esbarrou na limitação de alcance e estrutura. Poucos campeonatos são transmitidos, e muitos jogos permanecem restritos ao público local. Para Kauã, as “mídias sociais vieram preencher essa lacuna. As redes facilitam a divulgação, tanto da modalidade, quanto dos atletas e até dos próprios jornalistas”, afirma. Segundo ele, mesmo sendo um campeonato amador, os jogos de várzea, em Sorocaba, têm qualidade e organização, características que merecem destaque.

A estratégia adotada por Kauã é simples, mas eficaz: linguagem acessível aliada ao tratamento profissional. “O público quer ver os amigos, parentes e colegas sendo tratados como jogadores de verdade. E é isso que tentamos mostrar.”

Essa abordagem tem rendido frutos. Com a valorização das partidas nas redes, atletas e times vêm ganhando mais reconhecimento, e até patrocínios. Ele cita como exemplo a Taça das Favelas, torneio que tem projetado jovens talentos em comunidades do país.

Outro caso é a Copa Pionners, em São Paulo, que oferece uma das maiores premiações do futebol amador: R$ 100 mil ao time vencedor. “A visibilidade que essas competições ganharam nas redes sociais foi fundamental para essa transformação”, analisa.

O outro lado da bola

Apesar dos avanços, os desafios persistem. O maior, segundo Kauã, é a “concorrência desleal e a falta de reconhecimento. Muitos grandes portais pegam nosso conteúdo sem dar os devidos créditos”, denuncia. A produção independente exige tempo, dedicação e investimento em equipamentos, muitas vezes, sem retorno financeiro imediato.

O valor ignorado pela mídia

Mesmo assim, o impacto da atuação nas redes sociais é visível. Para Kauã, a vivência na várzea tem sido uma “escola prática de jornalismo”. “Você aprende fazendo: entrevista, grava, narra, edita. Isso vai direto para o portfólio.” Graças a essa experiência, ele já colaborou com grandes veículos de comunicação, como a CNN, o Globo Esporte e a TV TEM, afiliada da Rede Globo em Sorocaba, abrindo portas para oportunidades profissionais antes impensáveis.

Uma várzea que se profissionaliza

A força da várzea sorocabana pode ser medida pelo calibre dos jogadores que têm passado por ela. Recentemente, o ex-atacante Leandro Damião, com passagem pela seleção brasileira, integrou um time da região.

Para Kauã, esse tipo de movimentação mostra que a “várzea está se profissionalizando", com clubes que já contam, inclusive, com folhas salariais maiores que as de times profissionais, como o São Bento.

“A várzea, em Sorocaba, está se tornando uma vitrine nacional. E as redes sociais têm papel essencial nisso.” O estudante acredita que o futebol amador pode ser uma ferramenta de transformação social e, mais do que nunca, merece ser levado a sério, dentro e fora das quatro linhas.

No cenário atual, em que o consumo de conteúdo esportivo se diversifica e se fragmenta, a atuação em plataformas digitais não é mais apenas um diferencial, mas uma necessidade para quem quer ser visto e lembrado. E Sorocaba, com sua vibrante cena da várzea, tem muito a mostrar, com a ajuda das redes sociais e de jornalistas como Kauã.