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Adriano Castor conta a várzea: histórias que pulam da arquibancada para a comunidade

Por Kauã Rocha

Adriano Castor entrevistando um atleta do A. A. Vila Helena, pelo campeonato da Taça Cidade.
Fonte: Acervo Pessoal.

O futebol de várzea, também conhecido como futebol amador ou de bairro, é uma manifestação esportiva profundamente enraizada na cultura popular brasileira. Disputado em campos improvisados, muitas vezes sem estrutura formal, esse tipo de futebol vai além do entretenimento: ele ocupa um papel central na vida social das periferias urbanas, funcionando como um espaço de convivência, pertencimento e identidade coletiva.

Em cidades de médio porte como Sorocaba, no interior de São Paulo, o futebol de várzea representa uma importante ferramenta de integração social. Nos bairros, os campeonatos de fim de semana mobilizam moradores, jogadores, familiares e pequenos comerciantes locais, fortalecendo laços comunitários e promovendo a ocupação dos espaços públicos por meio do esporte. Mais do que revelar talentos, embora isso também ocorra, o futebol de várzea oferece oportunidades simbólicas e concretas de resistência, inclusão e protagonismo para jovens em situação de vulnerabilidade. Muitos dos times existentes são autogeridos por moradores da própria comunidade, funcionando com base no esforço coletivo e na solidariedade, o que reforça o papel desse esporte como prática social autêntica e transformadora.

Esses jornalistas percorrem os campos nos fins de semana, conversam com os técnicos, registram gols históricos e contam histórias que, muitas vezes, não chegam às grandes mídias. São eles que documentam a emoção dos clássicos varzeanos, a trajetória dos times tradicionais dos bairros e os bastidores de um futebol que pulsa fora dos holofotes.

Em Sorocaba, o futebol de várzea não move apenas atletas e torcedores, ele também inspira o trabalho de jornalistas que enxergam, nos campos de terra e nos jogos de bairro, um retrato autêntico da cultura local. Muitos profissionais da imprensa regional desenvolvem uma verdadeira paixão por cobrir o futebol amador, reconhecendo nele não só o valor esportivo, mas também sua força como expressão social e comunitária.

Mais do que cumprir uma função informativa, esses profissionais tornam-se parte ativa da cena varzeana, ajudando a manter viva a memória do futebol popular de Sorocaba e dando visibilidade a uma prática que movimenta a cidade de forma intensa e genuína.

Quem vive isso de perto é o jornalista Adriano Castor, que tem acompanhado o futebol amador da região há anos e compartilha sua visão crítica, mas esperançosa, sobre a cobertura da imprensa.

"Na minha visão, a cobertura ainda é muito limitada. O futebol de várzea em Sorocaba é forte, tem história e tradição, mas acaba recebendo pouco espaço na mídia", afirma Castor. O jornalista aponta que esse distanciamento tem raízes na violência extracampo que, por anos, afastou a imprensa e o público. "Porém, com penas mais duras e uma boa conscientização das comunidades, isso melhorou bastante", completa.

A cobertura ainda é limitada

Segundo ele, hoje há espaço para contar histórias mais humanas e valorizar o esforço quase profissional que muitas equipes realizam. “É tão organizado e apaixonante a maneira como cuidam dos atletas: café da manhã, almoço, frutas, chuteiras, toalhas… todo o aparato extracampo é tratado com muita dedicação”, diz.

Para Adriano Castor, o caminho está na humanização das pautas e na aproximação com as comunidades. “Mostrar as histórias de superação dos atletas, dos técnicos e dos times já seria um grande passo”, afirma. Ele cita o exemplo de Leandro Damião, jogador que passou pela Seleção Brasileira e que disputou o campeonato amador pelo tradicional Vila Helena, como uma das muitas histórias que poderiam ganhar destaque.

Memórias que ficam para sempre

Entre as muitas histórias vividas no campo, uma em especial marcou o jornalista, na ocasião, ele cobriu uma final do Varzeano em Votorantim, e o Grêmio Cachoeira venceu o Grêmio São João por 4 × 3 com um jogador a menos, após marcar o gol da virada aos 49 minutos do segundo tempo.

Castor estava no campo pela Rádio Nova Tropical e registrou o momento decisivo. “Conversei com o jogador Léio [...] Ele disse: ‘Acredite que nós vamos virar o jogo’. Naquele momento estava 2 × 0 para o Grêmio São João”. O desfecho foi histórico e ficou marcado como “o jogo da carreira” para o árbitro Guilherme Ceretta de Lima.

Desafios de quem cobre o futebol amador

A cobertura do futebol amador não é tarefa simples. Falta estrutura, apoio e, sobretudo, acesso à informação. “Muitas vezes, não há informações oficiais sobre os campeonatos, resultados ou tabelas atualizadas no momento em que as partidas ocorrem”, relata Castor. Plataformas como o YouTube têm ajudado, com transmissões feitas por entusiastas do esporte, mas isso ainda não supre a ausência de um trabalho jornalístico mais consistente.

Além disso, a falta de apelo comercial afasta os grandes veículos de comunicação. “Quem tenta acompanhar por conta própria enfrenta dificuldade de locomoção, falta de apoio e limitação de tempo, já que tudo é feito mais por amor do que por retorno financeiro”, afirma.

O valor ignorado pela mídia

“Sinceramente, não. A mídia ainda não enxerga o verdadeiro valor da várzea”, diz Castor, ao ser questionado sobre o espaço dado aos campeonatos amadores. Para ele, o futebol de várzea é mais do que esporte: é cultura, resistência e identidade. “Movimenta muita gente, gera histórias incríveis e é um reflexo da cultura popular”, ressalta.

Mesmo entendendo a lógica comercial das redações, em que deslocamentos e coberturas demandam investimentos, ele acredita que, com um pouco mais de organização, seria possível mudar esse cenário.

Como melhorar a cobertura?

Castor também sugere a criação de espaços fixos para divulgação de resultados, entrevistas e bastidores. “Isso não só valoriza quem está no campo, mas também fortalece o esporte e incentiva os jovens”, diz.

A várzea como parte da comunidade

Mais do que lazer, o futebol de várzea é um elo social. “É um ponto de encontro das comunidades, um espaço de lazer, convivência e até oportunidade. Muitas pessoas crescem ali, aprendem valores, fazem amigos e encontram no esporte uma forma de se expressar”, resume Castor.

Ele reforça que o momento é propício para que a imprensa volte a olhar com mais carinho para o futebol amador. “A imprensa poderia explorar mais esse lado humano, mostrando o quanto a várzea transforma vidas e mantém viva a paixão pelo futebol em sua forma mais pura”, argumenta.

Outro momento inesquecível foi a cobertura do clássico entre Vila Helena e Enquadros. “Na última partida, o Enquadros empatou aos 53 minutos da segunda etapa [...] O goleiro Marcone (hoje no América) defendeu três cobranças, garantindo o título ao Vila Helena”, conta.

A fala de Adriano Castor mostra uma realidade: o futebol de várzea pulsa fora dos holofotes, mas não fora da vida das pessoas. A cobertura jornalística precisa ir além da lógica comercial e reconhecer o valor humano e social que se constrói nos campos de terra batida. Afinal, como ele mesmo diz, “são vivências espetaculares do lado do campo – contar histórias e vivenciá‑las ao mesmo tempo.” E, talvez, seja isso que falta: viver mais o que se noticia.